Início » Uncategorized » CARNAVAL EM PLENO MÊS DE MAIO | Comunidade do samba choca conservadores de São Leopoldo (RS) ao mostrar que a resistência cultural popular acontece durante o ano inteiro

CARNAVAL EM PLENO MÊS DE MAIO | Comunidade do samba choca conservadores de São Leopoldo (RS) ao mostrar que a resistência cultural popular acontece durante o ano inteiro

18620874_1429969747061714_8070228954402322226_o

Por Henri Figueiredo*

Na noite de sábado, 20 de maio, e por toda a madrugada de domingo, 21, uma grande parcela da comunidade conservadora de São Leopoldo (RS) ficou escandalizada: o povo da periferia tomara uma das principais avenidas centrais da cidade para festejar o seu carnaval a um mês das festas juninas. A reação nas redes sociais foi agressiva e misturou xingamentos, racismo explícito, eugenia cultural, imprecações contra o governo municipal, reclamações pelo “ruído” e pela “sujeira” dos que ousaram ocupar o espaço público para celebrar o orgulho e a beleza de ser brasileiro.

A escalada do ódio, da intolerância e da ignorância fascista na sociedade brasileira do século XXI encontra nas redes sociais seu painel mais aterrador. A ameaçadora “legião de imbecis”, nas palavras de Umberto Eco, comenta nas redes sociais pintada para a guerra e pregando o extermínio de “tudo o que não presta”. Essa mesma turba ignara que, apesar de assalariada, pensa e age como os patrões, só saiu às ruas nas últimas décadas para ajudar a dar (mais um) golpe de Estado. São os que preferem a assepsia, as marcas estrangeiras e o ar refrigerado dos shoppings centers – o templo contemporâneo de Mamon, o deus do mercado.

Na bolha em que vivem os conservadores protofascistas, povo pobre e preto (ou quase) tem que é que ficar contido em guetos na periferia – as ruas das “áreas nobres” da cidade seriam para os “cidadãos de bem”. Mesmo que não tenham “bens”, como a maioria. Se o povo, então, resolve fazer festa, aí torna-se intolerável.

RESISTÊNCIA CULTURAL

18558821_1429966657062023_1938282580247504319_o

Desde 2013, São Leopoldo não via uma noite de carnaval de escolas de samba como a que aconteceu este ano – e aquele foi último ano do plano plurianual do governo anterior do PT (2005-2012), em que se cumpria uma lei municipal de investimento na festa popular e, portanto, havia orçamento para o evento. Durante o governo tucano e peemedebista de 2013-2016, o carnaval foi tratado como uma excentricidade que deveria ser contida e regulada, até ser extinta. Aliás, não só a cultura popular, mas a cultura em si. Sem diálogo, sem investimento e sem vontade política, a Secretaria de Cultura esteve em vias de ser extinta – o que só não ocorreu, em 2015, devido à mobilização da comunidade artística da cidade.

Poucos lembram mas, a partir de 2006, o carnaval de São Leopoldo tinha transmissão ao vivo pela TV Unisinos, em UHF, e ganhou, inclusive, um especial no Futura, canal por assinatura da Fundação Roberto Marinho – que mantinha parceria com a emissora dos jesuítas, hoje já desativada. Nos anos seguintes, a festa foi considerada um dos principais carnavais do interior do Rio Grande do Sul – até perder o apoio do poder público, a partir de 2013. Também por isso, é simbólica a retomada do carnaval leopoldense. Mostra que a resistência cultural popular acontece durante o ano inteiro e não apenas na efeméride entre fevereiro e março. A comunidade carnavalesca vive a cultura do samba, ainda que para os estratos médios (e brancos) a festa esteja vinculada ao primeiro feriadão do calendário.

De acordo com os organizadores, entre 3,5 mil e 5 mil pessoas participaram do carnaval de São Leopoldo, na noite de sábado, 20, e madrugada de domingo, 21 de maio – mesmo debaixo da chuva intensa que começou por volta das 23h30min. Sete escolas de samba, de todas as regiões da cidade, competiram e a campeã foi a Império do Sol, do bairro São Miguel. [Saiba detalhes aqui].  Dada a grave situação financeira do município, a Prefeitura de São Leopoldo não pagou cachês nem fez repasse financeiro ao carnaval. A Associação das Entidades Culturais, Recreativas e Carnavalescas de São Leopoldo (AECRCSL) aprovou um projeto no Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, e captou R$ 55 mil reais em incentivo fiscal e R$ 30 mil em patrocínio direto de duas empresas privadas. A Prefeitura deu suporte na infraestrutura, limpeza e segurança do evento.

A SOMBRA DO ÓDIO E O ORGULHO DE SER IGNORANTE

São Leopoldo carrega o título oficial de “Berço da Colonização Alemã no Brasil”. Quando, em 1824, chegaram as primeiras levas de imigrantes, no entanto, eles foram acolhidos na antiga Feitoria do Linho Cânhamo, uma fazenda portuguesa com mão de obra de negros escravizados – antes ainda a região do Vale do Rio dos Sinos era território das etnias indígenas Kaingang e Guarani. Erram, portanto, os que acreditam que foram os germânicos os primeiros habitantes desta terra e que o “carnaval não é nossa cultura”. Eis a mentalidade de colonizado introjetada na percepção de realidade dos descendentes dos colonizadores.

18623579_1429968600395162_9151089550447342627_o

Durante uma breve manifestação na abertura dos desfiles, o prefeito de São Leopoldo Ary Vanazzi (PT) comentou que o público que ele encontrou nas arquibancadas era o povo dos bairros periféricos da cidade – bastava uma passar de olhos para perceber a predominância de negros e miscigenados. “A cidade é de todos e de todas as raças”, disse o prefeito. Quando as manifestações de ódio começaram a pipocar nas redes sociais, o secretário de Cultura, Ismael Mendonça, contextualizou: “Temos que entender que o pessoal precisa se manifestar nas suas bolhas ideológicas na internet; nós nos manifestamos nas ruas, como nessa festa”.

A radicalidade das manifestações de ódio, nas redes, contudo, se estendeu como uma sombra virtual sobre São Leopoldo. “E os PM que deveriam estar nas ruas cuidando da segurança da cidade. Estão aí participando da bagaça”, registrou uma internauta no Facebook oficial da Prefeitura de São Leopoldo. Se não houvesse segurança, com certeza, a reclamação seria essa. Um dos clichês dos comentaristas de internet é: “Não tenho nada contra, MAS…” Encontram-se às dezenas comentários com essa construção primária entre os que odeiam o carnaval, os negros, os gays, os sindicalistas, a Esquerda, o PT, ou seja, “tudo o que não presta”. Aliás, outro internauta comentou que estavam distribuindo “pão com mortadela” na festa – a direita hidrófoba não é nada original nas suas observações.

Outros, tentando parecer mais elaborados, sem perceber que estavam reproduzindo uma grande bobagem, criticavam o investimento no carnaval ao passo em que saúde, segurança e educação estão precárias. Esta é, inclusive, uma das maiores falácias dos adversários da cultura – de que o investimento na área retiraria verbas de outros setores essenciais do atendimento à população. Não basta explicar as leis orçamentárias; não basta noticiar que a Prefeitura não transferiu verba (ainda que isso seja lei municipal); não basta ser transparente. Não basta informar, é preciso entender que os comentaristas de redes sociais têm orgulho da própria ignorância. Nenhum argumento, por melhor que seja, pode aplacar o rancor, a frustração, a solidão, a tristeza e a náusea dos que vomitam seus preconceitos nas redes sociais.

Na página de Facebook do Jornal VS, o principal jornal comercial da cidade, um comentário de um cidadão com sobrenome alemão dizia: “Não foi usado dinheiro público, mas e aquele monte de policial e guardas municipais que estavam lá ao invés de estar nos bairros fazendo a segurança??? Quem vai pagar??? E os garis que tiveram que limpar o chiqueiro que fica pra traz??? Quem paga??? Bela porcaria!!! Somos uma cidade colonizada por alemães nossa cultura não é carnaval!!! Além de tudo somos gaúchos não cariocas!!!”. Além da ênfase exagerada na pontuação, este comentário escancara a mentalidade burguesa xenófoba – o povo da festa (e, inclusive, os moradores do entorno da festa, no Centro) não mereceria segurança pública, já que “os policiais deveriam estar nos bairros”. “Quem vai pagar” é o discurso clássico dos que gostam de privatizar a segurança pública e acham que a Brigada Militar e a Guarda Civil só devem vigiar seu próprio patrimônio. “Os garis que tiveram que limpar o chiqueiro” mostra a visão que o tal cidadão tem do povo pobre: porcos. E, finaliza, com uma pérola da xenofobia arcaica: “Somos uma cidade colonizada por alemães nossa cultura não é carnaval!”. Quase consegui vê-lo gritando, entre perdigotos, um “Sieg Heil”, braço estendido, mão rígida, rosto crispado. A turma dos bolsominions aplaude de pé tamanha babaquice.

NA AVENIDA: ALEGRIA, TOLERÂNCIA E CONSCIÊNCIA POLÍTICA

18595524_1429971417061547_2202498814927739038_o

Na mistura de raças que aconteceu na avenida Dom João Becker, entre sábado e domingo, grande parte debaixo de chuva, os surdos das baterias ritmavam como o grande coração do povo trabalhador. Os intérpretes das sete escolas cantaram a tolerância e a miscigenação, mas também a luta contra as injustiças. Entre a honra das porta-bandeiras e dos mestres-salas e a sensualidade das passistas, alas mostraram a alegria de ser do Brasil e as mazelas de ser brasileiro; denunciaram a violência contra mulher; e exigiram demarcação de terras indígenas. Mesmo debaixo de um temporal intenso, a certa altura da madrugada, os sambistas enfrentaram o asfalto alagado e o frio para desfilar o melhor do povo – a beleza da resistência cultural genuína diante da epidemia das mentes colonizadas.

18558658_1429972187061470_8813321685425435419_o

*Henri Figueiredo é leopoldense nato e tem sangue índio, italiano e português (e, por isso, provavelmente também tem genes africanos).

FOTOS: CHARLES DIAS | DECOM | PMSL

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: