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Para caminhar

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Em 30 de março topei no Facebook com uma postagem perturbadora do filósofo, escritor e roteirista Luiz Carlos Maciel – por quem tenho grande respeito e apreço. Fui arrancado, durante a leitura, de uma certa “zona de conforto discursiva”, digamos assim, a respeito da realpolitik. É como se tivesse, diante do espelho, me deparado com o jovem que fui há 30, 25, 20 anos atrás.

Eis o texto de Maciel:

QUANDO A POLÍTICA É INEVITÁVEL

Já escrevi, aqui no Face, outras vezes, que, de jeito nenhum, a Política pode ser considerada uma das mais nobres manifestações da atividade humana. Pelo contrário: é das mais rasteiras. Não pode ser comparada às manifestações superiores do espírito humano, como a Arte e o Pensamento que sondam, cada um à sua maneira, o abismo do Ser, o próprio sentido de nossa presença neste Universo supostamente físico, a maravilha e o terror do ser humano. Nada disso. A Política, nem Arte nem Ciência, é apenas um trabalho que responde à necessidade primária de simplesmente arrumar a casa, ou seja, nosso espaço físico. Foi uma suposta solução criada pelos gregos para organizar a Polis, a cidade, sendo esta, aliás, uma invenção que alguns apontam como simplesmente desastrosa, um acúmulo excessivo de gente num espaço exíguo, situação que estimula a fofoca, a inveja, a falta de higiene, a imundice e, em consequência, a enorme variedade de doenças físicas e psíquicas que, aparentemente, pelo passar do tempo, só aumentam em número e gravidade. A Política é pobre pela própria natureza. Certos espíritos superiores, na sua juventude, tendem a simplesmente desprezá-la, achando que a tal arrumação da casa poderia ser entregue satisfatoriamente a cérebros inferiores. Aconteceu, por exemplo, com Jean-Paul Sartre; ainda muito jovem revelou-se um grande artista – ficcionista e dramaturgo – e, ainda por cima, um grande filósofo. Ignorava a política. Foi preciso uma guerra mundial e a dolorosa situação de prisioneiro para que ele percebesse a necessidade da ação política que ele passou a exercer, com energia e inteligência, até o fim de sua vida, na velhice. Enfrentou a atividade política com sua pletora de cérebros inferiores, suas intrigas incessantes (o poeta Allen Ginsberg apontou na fofoca pura e simples a essência da atividade política), suas traições repugnantes (como a recente, entre nós, do Michel Temer), seus conchavos e suas mentiras deslavadas e totalmente comprometidas com objetivos inconfessáveis pela posse do poder (como acontece com a maioria absoluta dos políticos profissionais). Sartre reconheceu que, infelizmente, a Política é inevitável como, aliás, está acontecendo agora em nosso País. A iminência da consumação de um Golpe, seja na forma da falsificação de um impeachment absurdo da Presidente de República, tanto no Legislativo quanto no Judiciário, ou em qualquer outra forma venal que se apresente, é uma circunstância que deve ser enfrentada por todo cidadão decente. Eu não poderia me omitir, em que pesem todas as palavras que abrem esse texto. Enganam-se os que acham que eu mudei, de minha juventude para cá. Ao contrário, tanto meu pensamento quanto minha posição em relação à contracultura só se aprofundaram. Não sou, nem nunca fui, o guru da contracultura, expressão que considero ridícula porque é uma contradição em termos. Sou, como sempre fui, um homem livre e tenho minha maneira livre de ver e optar. Agora, no caso, contra o Golpe. A favor da Democracia. Dilma fica.

Desde a minha politização, com 13, 14 anos de idade, numa Comunidade Eclesial de Base (CEB) da Igreja Católica ligada à Teologia da Libertação, fui treinado para desconfiar dos políticos profissionais – fossem de que partido fossem. Quando, aos 16, comecei a trabalhar numa empresa de comunicação, no fim dos anos 80 e, portanto, no início da nossa chamada “redemocratização”, as redações ainda eram majoritariamente de Esquerda e o nível crítico elevadíssimo.

O movimento estudantil, primeiro secundarista, depois universitário, foi meu grande campo de formação política. Por uma clara e definida opção passei toda a juventude militando mas sem ingressar formalmente no PT. Ouvia desde muito cedo que seria importante me filiar para disputar os rumos da política partidária “por dentro”. Sempre preferi, sem estar filiado, disputar a hegemonia (antes de ler Gramsci), as consciências e a narrativa popular e democrática por dentro das redações e fazer o meu papel de jornalista.

Antes de completar duas décadas nessa peleia, e sem abdicar jamais do papel de jornalista e do espírito de repórter, minhas ilusões se converteram no entendimento de que nem foi possível disputar a narrativa por dentro da mídia comercial nem os que “disputavam por dentro” no PT conseguiram pensar (e transformar) a mercado de comunicação social no Brasil.

Em vez apenas de ficar reclamando, resolvi fazer alguma diferença e, por isso, há quase 10 anos, passei a “disputar por dentro”. Sem ilusões, sem veleidades e, na medida do possível, com generosidade.

A política partidária é campo árido para quem tem conceito estético além do ético. Por outro lado, desenvolve não só a resiliência como a capacidade de se compor em nome de um objetivo maior do que o particular e imediato, classista ou corporativo. A bandeira da “ética e da transparência”, que eu levantava junto com os meus queridos amigos e amigas militantes de Esquerda nos anos 90 não foi rasgada. Ainda que eu perceba que o território político tenha perdido densidade programática, habilidade para o debate e esteja menos permeável à crítica – recebida no mais das vezes como se fosse mero ataque. Isso derrete a dialética e, quando não há dialética, nos resta apenas o “sim, senhor!” às lideranças constituídas.

Nunca deixei de acreditar no ideário igualitário da Esquerda, da justiça social, da pluralidade e do respeito à diversidade. Desde a CEB (e não vai nenhuma contradição nisso), aprendi que o Estado deve ser laico e que partido é partido, governo é governo e que a imprensa livre de verdade precisa ser independente tanto da religião, quanto do partido e, principalmente, do governo. A tragédia da imprensa brasileira é que, à esquerda e à direita, são raríssimos os veículos e profissionais que realmente são independentes – porque se cobra conversão à ideologia e não a melhor capacitação para o serviço público fundamental que é o jornalismo.

Sigo acreditando em transformação. Chamem-me de utópico, tudo bem. Como disse Eduardo Galeano, lembrando seu amigo cineasta Fernando Birri: “A utopia está no horizonte. Sei que nunca a alcançarei. Caminho dez passos e ela se afasta dez passos. Quanto mais a buscar menos a encontrarei porque ela vai se afastando a medida em que me aproximo. Então, para que serve a utopia? Para isso: para caminhar”.

Henri Figueiredo

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