Início » 2016 » maio

Arquivo mensal: maio 2016

Criacionistas e jusnaturalistas: sobre os despachantes do golpe e como enfrentá-los

“Após quatro derrotas eleitorais, a direita brasileira resolveu se alinhar a essas estruturas estamentais de crenças e a sua degeneração. Assim, juízes, bacharéis pouco letrados e superassalariados, crentes na guerra ideológica disseminada pelas famílias midiáticas e desconfiados, por formação, do caráter originário e fundacional da constitucionalidade e dos regimentos processuais, passaram à linha de frente, qual cabos de esquadra, da quebra constitucional. E, no seu rastro, o câncer criacionista avançou, disseminando a suspeita, a paranoia e a aniquilação de qualquer legitimidade democrática que tenha escopo no campo dos direitos e do reconhecimento de direitos. Diante da aliança entre jusnaturalistas, criacionistas e mídia familiar, o congresso brasileiro é secundário: apenas ecoam uma agenda de arbítrio e fechamento democrático que lhes foi ofertada, com ares procedimentais e jurídicos envernizantes do arbítrio.

O que se avizinha é um processo de fechamento democrático sem precedentes, desde a última ditadura. Não se rompe a ordem constitucional e não se flerta e negocia com a delinquência impunemente. Isso vale para todos, mas vale sobretudo para quem insiste em suspeitar do caráter não derivativo da legalidade. Mais do que nunca, precisamos defender a Constituição de 1988, a grande conquista dogmática da redemocratização brasileira. Nenhum processo de fechamento democrático, na história, preocupou-se com processos constituintes e com o respeito à legalidade. A esquerda brasileira e o pensamento jurídico não bacharelesco não perderia se parasse de suspeitar da racionalidade e da dignidade do direito positivo, da dogmática jurídica, e passasse a respeitá-las. Esta é a grande tarefa, frente a regressão ao século XIX, que temos pela frente.”

rsurgente

"Este golpe e a agenda por ele implicada só se tornou possível com o progressivo avanço do criacionismo e do jusnaturalismo estamental, sobre a democracia e a república brasileiras." “Este golpe e a agenda por ele implicada só se tornou possível com o progressivo avanço do criacionismo e do jusnaturalismo estamental, sobre a democracia e a república brasileiras.”

Por Katarina Peixoto

“Tornar cultiváveis regiões até onde há pouco vicejava a loucura. Avançar com o machado da razão, sem olhar nem para a direita, nem para a esquerda, para não sucumbir ao horror que acena das profundezas da selva. Todo solo deve alguma vez ter sido revolvido pela razão, carpido no matagal do desvario e do mito. É o que deve ser realizado aqui para o solo do século XIX”. (W. Benjamin, Teoria do Conhecimento e Teoria do Progresso)

Há um consenso no diagnóstico do golpe brasileiro: trata-se de uma reação das elites e, como tal, é regressivo, tanto social, como juridicamente. O golpe de estado oficialmente viabilizado no dia 17 de abril de 2016 acarretaria, na sua promessa…

Ver o post original 3.070 mais palavras

Anúncios

RÉQUIEM, por Gabriel Priolli

13177189_1245752812115145_5539654851384970508_n

Encerra-se nesta data o período de plenitude democrática inaugurado no país em 5 de outubro de 1988, com a promulgação da “Constituição Cidadã” ora revogada pelo impeachment da Presidenta Dilma Rousseff.

Inicia-se um regime plutocrático de completa incerteza política e jurídica, em que as garantias constitucionais e legais serão exercidas seletivamente, em exclusivo benefício dos donos do poder e em prejuízo de tudo que representar as forças populares.

Fica estabelecido que o novo regime exercerá o poder pela farsa e que as eleições serão mero exercício de manutenção das aparências, tendo o seu resultado respeitado apenas se ele coincidir com o interesse do poder dominante.

Determina-se, em decorrência, que toda vez que a esquerda política estiver em condições de conquistar o poder pelo voto, seus candidatos serão perseguidos até que sejam inabilitados.

Caso não se obtenha por meios persecutórios a sua retirada do páreo e eles venham a ganhar a disputa, o pleito não será reconhecido e um imediato processo de impedimento será iniciado.

Revoga-se desde já qualquer objeção da Justiça ao disposto neste édito, na hipótese remota de que seja apresentada.

Permanecerão os tribunais na completa omissão de suas responsabilidades, que será devidamente recompensada com régia remuneração e infinitas prebendas.

Que Deus tenha misericórdia desta Nação. Que possa ensiná-la a viver, doravante, assim dividida, conflagrada e nutrida de ódios.

Brasília, aos 11 dias do mês de maio do ano da graça de 2016, início de uma nova era de efetiva ordem e progresso no Brasil – ou apenas ordem, quando não for possível o progresso.

Post original no Facebook aqui.

da série: “A RETÓRICA SEM-VERGONHA DE ‘JORNALISTAS’ QUE APOIAM O GOLPE E A CASSAÇÃO DE 54,4 MILHÕES DE VOTOS DIRETOS” — CARTA ABERTA À JORNALISTA MAGALI SCHMITT

post golpista da Magali
A jornalista leopoldense Magali Schmitt, da Publier Comunicação, foi minha colega há 20 anos, no jornal NH. A tinha até recentemente como uma amiga. Digo “a tinha” porque não nutro amizades nem simpatias por golpistas como Magali. Na tarde deste 10 de maio, véspera da efetivação do golpe jurídico-midiático no Senado, Magali está entusiasmada. Soltou o verbo, em seu perfil de Facebook, com a pior retórica de criminalização dos movimentos sociais e sindicais que saíram às ruas de todo o país, hoje, na luta contra a ruptura da ordem democrática.

Magali reproduz a cantinela (pra usar um termo dela) da mídia bandida, cartelizada e oligopolista. Vai além: fecha o texto num tom ameaçador e udenista, usando o discurso vazio do combate à corrupção (usado por todos os movimentos fascistas do século XX, por exemplo) como se isso intimidasse algum militante social, partidário ou sindical. Está, é claro, confortável na sua “bolha ideológica” proporcionada pelo Facebook e demais redes sociais – onde todos dizem amém ou, no máximo, formulam críticas que nem fazem cócegas. Esqueceu de mim, o ex-colega petralha, independente, crítico, chato, vermelho (ainda que gemista), enfim, livre! Não importa o epíteto preconceituoso que empregue, eu não me rendo e nem me calo.

O post de Magali, à luz da História, vai envergonhá-la – sabemos como golpes começam, mas nunca sabemos como terminam. Para usar outra máxima, muita adequada ao momento: “Povo que não conhece sua História está condenado a repeti-la”. Magali não se importa com a ruptura democrática – a comemora. Magali não enxerga justiça e razão nos trabalhadores que se insurgem contra o golpe jurídico-midiático e em defesa da democracia a duras penas conquistada. Ela, sim, nos trata como “loucos mentirosos” e baderneiros. O que é preciso “começar de alguma forma”, Magali? A higienização ideológica, racial e comportamental do Brasil, tal qual os nazis de meados do século XX fizeram com comunistas, judeus, negros, ciganos, deficientes e homossexuais? O que está apenas “no começo”, Magali? O fim da corrupção com o poder nas mãos de um investigado e ficha suja chamado Michel Temer (aquele traidor!), com um novo ministério neoliberal repleto de réus, citados, investigados e delatados? O discurso messiânico de “varrer a corrupção” não é só antigo (o udenista Janio Quadros o usou contra JK), mas também cheira à pólvora e a sangue. Quantos tiveram seus mandatos cassados injustamente; quantos foram perseguidos pelo que se seguiu à caça às bruxas de 64-85; quantos foram mortos nos porões do honesto regime militar em nome da “moralização da política”?

Eu vou poder olhar nos olhos de meus filhos e netos e dizer que estive do lado certo da História em 2016. Fui pra rua, militei, lutei pela legalidade e pela democracia e, mesmo com toneladas de críticas ao governo que ora agoniza, respeitei os mais de 54,4 milhões de votos DIRETOS que elegeram Dilma Rousseff – uma rara exceção de política honesta, não investigada, não citada e não delatada entre centenas de integrantes do Sindicato de Ladrões que se tornou o Congresso Nacional – todos, como ratos, tentando escapar das investigações (seletivas) em curso. O outro lado da disputa saiu às ruas de verde e amarelo ao lado de fascistas, de defensores da tortura e da ditadura, de intolerantes e fundamentalistas religiosos, de hipócritas corruptos – todos manobrados pela narrativa unilateral da Globo, que é a cabeça do cartel midiático.

A História, Magali Schmitt, vai te cobrar esse momento. Eu te cobro desde já. Não me considere mais alguém para se trocar ideias de maneira afável. Pode atravessar a rua se me encontrar. Se, nós da Resistência Democrática, sobrevivermos à luta contra o golpe de Estado travestido de impeachment – que pessoas como você apoiam – passaremos o resto de nossos dias denunciando os golpistas, os cúmplices do fascismo, a classe média midiota e globotomizada que vocês representam. A vergonha será a companheira dos colaboracionistas como você.

Para nós, que sempre estivemos na luta de classes, na defesa das conquistas sociais e da elevação do Brasil de uma república de famintos para uma potência emergente na geopolítica mundial, a luta faz parte do dia a dia, do nosso próprio DNA. Não somos oportunistas. Mas também não somos analfabetos políticos. Te vejo no outro lado da trincheira midiática. [HENRI FIGUEIREDO, jornalista]

O POST DA MAGALI NA TARDE DE 10 DE MAIO

Quando o melhor argumento que se tem é ir para as ruas quebrar, botar fogo, bater na imprensa, atrapalhar a rotina de quem está trabalhando e a própria rotina do Brasil, algo está errado. Causa estranhamento que essas sejam as mesmas pessoas que falam em nome da democracia e da constituição repetidamente, que batem na tecla do ódio e do fascismo com tanta veemência — mas demonstram exatamente isso com seus atos. Incitam a violência e não aceitam quem pensa diferente, apesar de repetir o mantra da democracia incansavelmente. Então, precisam mostrar, goela abaixo, a sua verdade absoluta. E causa estranhamento que tantas pessoas consigam ir às ruas em uma terça-feira, dia útil, em todo o país. O Brasil sangra e precisa de uma depuração urgente, em todos os setores e partidos. O que não dá mais é para se esconder atrás da cantilena de golpe. Diante dos fatos, quebra-quebra e baderna não são argumentos. Ou há um bando de loucos mentirosos empenhados em degradar a Pátria, ou há um bando de ingênuos que não querem ver o que todos estamos com vergonha de enxergar. Precisava começar de alguma forma. É apenas o começo, porque está na hora de andar para a frente. A marolinha cresceu e pode se transformar num tsunami. E, quando a onda voltar, varrerá de vez toda essa corrupção que se enraizou país afora. Só depende de nós

Para caminhar

13087291_1083849468320773_3679666579964094100_n

Em 30 de março topei no Facebook com uma postagem perturbadora do filósofo, escritor e roteirista Luiz Carlos Maciel – por quem tenho grande respeito e apreço. Fui arrancado, durante a leitura, de uma certa “zona de conforto discursiva”, digamos assim, a respeito da realpolitik. É como se tivesse, diante do espelho, me deparado com o jovem que fui há 30, 25, 20 anos atrás.

Eis o texto de Maciel:

QUANDO A POLÍTICA É INEVITÁVEL

Já escrevi, aqui no Face, outras vezes, que, de jeito nenhum, a Política pode ser considerada uma das mais nobres manifestações da atividade humana. Pelo contrário: é das mais rasteiras. Não pode ser comparada às manifestações superiores do espírito humano, como a Arte e o Pensamento que sondam, cada um à sua maneira, o abismo do Ser, o próprio sentido de nossa presença neste Universo supostamente físico, a maravilha e o terror do ser humano. Nada disso. A Política, nem Arte nem Ciência, é apenas um trabalho que responde à necessidade primária de simplesmente arrumar a casa, ou seja, nosso espaço físico. Foi uma suposta solução criada pelos gregos para organizar a Polis, a cidade, sendo esta, aliás, uma invenção que alguns apontam como simplesmente desastrosa, um acúmulo excessivo de gente num espaço exíguo, situação que estimula a fofoca, a inveja, a falta de higiene, a imundice e, em consequência, a enorme variedade de doenças físicas e psíquicas que, aparentemente, pelo passar do tempo, só aumentam em número e gravidade. A Política é pobre pela própria natureza. Certos espíritos superiores, na sua juventude, tendem a simplesmente desprezá-la, achando que a tal arrumação da casa poderia ser entregue satisfatoriamente a cérebros inferiores. Aconteceu, por exemplo, com Jean-Paul Sartre; ainda muito jovem revelou-se um grande artista – ficcionista e dramaturgo – e, ainda por cima, um grande filósofo. Ignorava a política. Foi preciso uma guerra mundial e a dolorosa situação de prisioneiro para que ele percebesse a necessidade da ação política que ele passou a exercer, com energia e inteligência, até o fim de sua vida, na velhice. Enfrentou a atividade política com sua pletora de cérebros inferiores, suas intrigas incessantes (o poeta Allen Ginsberg apontou na fofoca pura e simples a essência da atividade política), suas traições repugnantes (como a recente, entre nós, do Michel Temer), seus conchavos e suas mentiras deslavadas e totalmente comprometidas com objetivos inconfessáveis pela posse do poder (como acontece com a maioria absoluta dos políticos profissionais). Sartre reconheceu que, infelizmente, a Política é inevitável como, aliás, está acontecendo agora em nosso País. A iminência da consumação de um Golpe, seja na forma da falsificação de um impeachment absurdo da Presidente de República, tanto no Legislativo quanto no Judiciário, ou em qualquer outra forma venal que se apresente, é uma circunstância que deve ser enfrentada por todo cidadão decente. Eu não poderia me omitir, em que pesem todas as palavras que abrem esse texto. Enganam-se os que acham que eu mudei, de minha juventude para cá. Ao contrário, tanto meu pensamento quanto minha posição em relação à contracultura só se aprofundaram. Não sou, nem nunca fui, o guru da contracultura, expressão que considero ridícula porque é uma contradição em termos. Sou, como sempre fui, um homem livre e tenho minha maneira livre de ver e optar. Agora, no caso, contra o Golpe. A favor da Democracia. Dilma fica.

Desde a minha politização, com 13, 14 anos de idade, numa Comunidade Eclesial de Base (CEB) da Igreja Católica ligada à Teologia da Libertação, fui treinado para desconfiar dos políticos profissionais – fossem de que partido fossem. Quando, aos 16, comecei a trabalhar numa empresa de comunicação, no fim dos anos 80 e, portanto, no início da nossa chamada “redemocratização”, as redações ainda eram majoritariamente de Esquerda e o nível crítico elevadíssimo.

O movimento estudantil, primeiro secundarista, depois universitário, foi meu grande campo de formação política. Por uma clara e definida opção passei toda a juventude militando mas sem ingressar formalmente no PT. Ouvia desde muito cedo que seria importante me filiar para disputar os rumos da política partidária “por dentro”. Sempre preferi, sem estar filiado, disputar a hegemonia (antes de ler Gramsci), as consciências e a narrativa popular e democrática por dentro das redações e fazer o meu papel de jornalista.

Antes de completar duas décadas nessa peleia, e sem abdicar jamais do papel de jornalista e do espírito de repórter, minhas ilusões se converteram no entendimento de que nem foi possível disputar a narrativa por dentro da mídia comercial nem os que “disputavam por dentro” no PT conseguiram pensar (e transformar) a mercado de comunicação social no Brasil.

Em vez apenas de ficar reclamando, resolvi fazer alguma diferença e, por isso, há quase 10 anos, passei a “disputar por dentro”. Sem ilusões, sem veleidades e, na medida do possível, com generosidade.

A política partidária é campo árido para quem tem conceito estético além do ético. Por outro lado, desenvolve não só a resiliência como a capacidade de se compor em nome de um objetivo maior do que o particular e imediato, classista ou corporativo. A bandeira da “ética e da transparência”, que eu levantava junto com os meus queridos amigos e amigas militantes de Esquerda nos anos 90 não foi rasgada. Ainda que eu perceba que o território político tenha perdido densidade programática, habilidade para o debate e esteja menos permeável à crítica – recebida no mais das vezes como se fosse mero ataque. Isso derrete a dialética e, quando não há dialética, nos resta apenas o “sim, senhor!” às lideranças constituídas.

Nunca deixei de acreditar no ideário igualitário da Esquerda, da justiça social, da pluralidade e do respeito à diversidade. Desde a CEB (e não vai nenhuma contradição nisso), aprendi que o Estado deve ser laico e que partido é partido, governo é governo e que a imprensa livre de verdade precisa ser independente tanto da religião, quanto do partido e, principalmente, do governo. A tragédia da imprensa brasileira é que, à esquerda e à direita, são raríssimos os veículos e profissionais que realmente são independentes – porque se cobra conversão à ideologia e não a melhor capacitação para o serviço público fundamental que é o jornalismo.

Sigo acreditando em transformação. Chamem-me de utópico, tudo bem. Como disse Eduardo Galeano, lembrando seu amigo cineasta Fernando Birri: “A utopia está no horizonte. Sei que nunca a alcançarei. Caminho dez passos e ela se afasta dez passos. Quanto mais a buscar menos a encontrarei porque ela vai se afastando a medida em que me aproximo. Então, para que serve a utopia? Para isso: para caminhar”.

Henri Figueiredo

%d blogueiros gostam disto: