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De jornalismo, opinião, redes e contra-hegemonia, por Henri Figueiredo

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Neste 7 de abril de 2016, este blog completa três anos de existência. Na apresentação, em 2013, anotei: “O leitor encontrará aqui opinião política, posicionada e provocativa. Informação livre tanto da mimese da mídia comercial quanto da catequese ideológica”. Eu comecei na profissão já assinando textos como repórter de jornal diário, em 1995, enquanto ainda era um estudante universitário – e sempre me mantive repórter. O blog, por isso, foi para mim uma experiência de alforria da objetividade, do lead e da estrutura do texto informativo. Aqui, pela primeira vez em quase 20 anos de jornalismo, me permiti opinar e reunir o que considero o melhor da opinião publicada tanto na mídia alternativa quanta na hegemônica. Ouço desde sempre que “antiguidade é posto”. Considerei que poderia assumir mais responsabilidade no posto autoconcedido de opinionista num espaço em que meus acúmulos como jornalista e homem de Esquerda pudessem convergir de maneira aberta e transparente.

Não previ que, meses depois da criação deste canal, explodiriam as históricas manifestações de rua de 2013 e a internet, enfim, passaria a ocupar o merecido lugar de destaque na cobertura jornalística nacional. Em muito devido à repulsa e ao rechaço, pelos manifestantes, dos veículos da mídia tradicional, cartelizada e corporativa. A mídia do cartel, naturalmente, criminalizou os movimentos de 2013 logo no seu início mas, dias depois, entendendo o potencial desestabilizador da ordem política institucional das mega-manifestações, passou a instrumentalizar os atos de protesto. Era o ensaio do que passou a ocorrer, desde 2015, nas coberturas dominicais dos atos da classe média branca revoltada contra o governo federal e sequiosa de um golpe de Estado. A Esquerda partidária e sindical, no entanto, demorou muito para entender 2013 tanto no aspecto da espontaneidade original dos movimentos quanto na sua pauta antissistêmica. E esta mesma Esquerda dá, em pleno 2016, os primeiros passos tímidos na operação da internet como ferramenta indispensável para a tecnopolítica. Noves fora todos os equívocos conciliatórios dos governos do PT com a burguesia, com a banca e com a mídia hegemônica, a situação política atual se explica também pela inabilidade em lidar com os novos recursos da Era da Informação.

A Direita nas ruas começa com a Direita articulada nas redes sociais. Só depois da reação conservadora ganhar corpo é que a mídia de massas amplifica e passa a promover uma insidiosa onda de ódio, intolerância e convulsão social. A Esquerda, com os pés cimentados no século XX, ignorou a escalada vertiginosa do acesso à internet (principalmente por meio de smartphones) da classe trabalhadora e continuou (continua) a investir em papel. Pior, a investir em panfleto. Insiste em combater o conservadorismo com palavra de ordem, com slogan e muito pouco conteúdo informativo. Frente à campanha diuturna da mídia de massas contra Dilma, Lula e o PT (e subliminarmente contra os direitos sociais e civis), a Esquerda distribuiu boletins com frases feitas e abdicou da disputa de consciência. Faltou informação, faltou formação política, faltou coragem para se praticar jornalismo. A opção primeira sempre foi pela propaganda. Olhos e consciências voltados para as disputas do século XX.

Com isso, não faço tábula rasa dos esforços de comunicação da Esquerda. Proponho, apenas, a reflexão e a ação necessária para adequar a linguagem combativa que caracteriza a imprensa do campo democrático e popular a uma mudança de paradigma de conteúdo. A disputa de hegemonia da consciência coletiva começa, sempre, nos aspectos culturais da sociedade e através de seus agentes, os artistas, e é desenvolvida e solidificada com formação e informação – e aí entram os intelectuais, professores, filósofos e, por fim, os comunicadores. E o trabalho dos operados da comunicação, na Esquerda, só para tratar deste último elo, precisa ser libertado da camisa de força do dirigismo partidário e sindical. O mesmo dirigismo, inclusive, que soterrou o debate sobre a necessária regulação econômica da mídia de massas com o discurso trágico de “controle social da mídia” – o que provocou uma reação fortíssima (e justa, eu diria) não só da imprensa comercial mas de amplos setores da sociedade brasileira.

Nestes tempos em que a internet é uma algaravia descomunal de teses e antíteses (mas sem síntese alguma), mentiras e desmentidos, a importância do profissional de comunicação, em especial o jornalista, cresce. É ele que tem o melhor instrumental para apurar, comparar, filtrar e publicar o que de fato interessa. Umberto Eco, nas entrevistas de lançamento de seu derradeiro livro em vida, “Número Zero” – em que trata justamente do papel da imprensa – disse que a rede liberou uma legião de imbecis: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

A facilidade tecnológica na produção e transmissão de informações, imagens, vídeos e opiniões faz com que não sejamos mais tão vulneráveis à narrativa unilateral da mídia venal. Mas não nos confere por si só a capacidade de disputa das consciências e da hegemonia. É preciso não apenas articular as redes mas dar-lhes credibilidade – essa palavrinha tão cara a qualquer repórter que se preze. E a credibilidade passa, necessariamente, pela qualificação do conteúdo e investimentos nos profissionais de mídia. Enquanto, num vídeo de 4 minutos, o discurso do dirigente ou do político tiver prevalência à narrativa audiovisual, estaremos enxugando gelo. Enquanto num jornal sindical ou boletim partidário, a foto do político e do dirigente e alguma fala inócua tiverem mais destaque do que a notícia e a contextualização da notícia, estes impressos já serão úteis para embrulhar peixe no mesmo dia da circulação. Jornal bom é aquele que te faz querer guardá-lo ou repassá-lo a um amigo. Vídeo bom é aquele você não abandona antes de acabar – mesmo que para isso tenha de gastar todo o limitado pacote de dados de internet no seu celular. Rede social boa é aquela em que muitos se sentem compelidos a se manifestar e não apenas ficam assistindo indiferentes ao debate de meia dúzia. Tudo isso, a mídia comercial hegemônica já sabe. E opera. Ou seja, até na nova seara tecnológica, os golpistas de sempre estão colhendo frutos enquanto nós ainda tentamos semear.

JORNAIS CONTRA O GOLPE

Tinha me proposto a publicar uma análise gráfica e editorial de alguns jornais sindicais que circularam na primeira semana de abril de 2016, no Rio Grande do Sul, à luz dos ensinamentos do querido Vito Gianotti, morto no ano passado. No entanto, me dei conta que publiquei uma análise assim, em 2011, no site da CUT do Rio de Janeiro. Em que pese se tratar de outra época, de outro estado e de outras circunstâncias para o movimento sindical, as linhas gerais do breve ensaio são ainda todas válidas. Se tiverem curiosidade, podem lê-la AQUI. Vou destacar apenas três trechos:

1) (…) a visão da teoria como dogma, do sindicato como aparelho e da imprensa apenas como propaganda, retira das imprensas que seguem este tipo de orientação qualquer possibilidade de entrar na base do sindicato para disputar hegemonia. Imprensa sindical é para fazer jornalismo, de esquerda, ideológico, sim, mas jornalismo. Não pode ser aparelhada, dogmatizada ou vista como Departamento de Propaganda. A pauta precisa ser aberta e ter a preocupação de demarcar contexto e opinião – registrando, desse modo, o nexo de causalidade e o lugar de fala das fontes de âmbito sindical.

[Daí que “imprensa sindical” sem que nos veículos estejam as vozes de oposição à direção do sindicato sofre do mesmo mal de falta de pluralidade e diversidade que questionamos na mídia hegemônica.]

2) Quando falamos em focar “a nossa pauta” isso não significa que trataremos só de temas alheios à pauta da mídia de massa ou de confronto à ideologia que a rege. Essas camadas não são separadas na nossa realidade, mas justapostas. Daí começamos a compreender que liberdade de expressão implica disputa constante, frequente, de espaço, ideias, argumentos… enfim, de hegemonia política. Desconfiem de quem quer aniquilar a expressão do outro. É sim “democrático” disputar “corações e mentes” o tempo inteiro. Quem não se dispõe à exposição pública, na livre argumentação da disputa, tem a esconder. O “exercício democrático” é isso mesmo: movimento. O contrário poderíamos chamar de “sedentarismo dogmático”, acomodação teórica, anacronismos ideológicos. Imprensa é a expressão viva da pluralidade e da disputa entre diferentes – nessa arena que são os veículos de comunicação, sejam eles impressos, digitais ou audiovisuais. À desigualdade de recursos entre nós e os donos da mídia de massa, e à sua abrangência, nós da mídia de resistência sindical chamamos “monopólio”. Ainda tecnicamente não seja, e seja sim uma hegemonia, a resistência pressupõe clamor por “democratização”. Então queremos “democratizar” a comunicação. Quer dizer, ter tanto poder de disputa de “corações e mentes”, tanta abrangência, tanta velocidade e tanta “credibilidade” quanto os que criticamos. Eis a regra do jogo – como diria Abramo.

E o último trecho:

3) Hoje, com o refinamento desigual das mídias patronais que abusam da qualidade visual no papel e em outros suportes, como a internet, fazer imprensa sindical sem investimento em fotografia, ilustração, editoração gráfica e diagramação de qualidade é condenar o jornal e revista a não serem lidos. É preciso ter gosto apurado e boa formação para poder disputar numa sociedade plural e de extrema diversidade. Para não caírmos em armadilhas elitistas, de um lado. E, de outro, para NÃO nivelarmos por baixo os nossos veículos de comunicação “porque, afinal, são de trabalhadores”.

Temos de ter coragem de enfrentar os preconceitos, o “bom senso” (senso comum diluído, como diria Gramsci), a visão hegemonizada na sociedade (a consciência de classes de uma sociedade é consciência da classe dominante, já nos avisava Marx). Não é um desafio pequeno, ao contrário. É necessário mais coragem do que para fazer um panfleto de aparelho – que reafirma verdades, já que não há dúvidas de nada. A disputa de hegemonia começa dentro da própria direção do sindicato – no convencimento constante de que os investimentos em comunicação devem ser contínuos e crescentes. E que imprensa é imprensa. E propaganda é propaganda. Ambas áreas importantes da comunicação social de qualquer instituição pública ou entidade representativa – mas que são compartimentos diferentes e requerem expertises distintas.

Então ficamos assim: não focamos a propaganda, ainda que respeitemos a capacidade dela acertar seus “targets”. Focamos jornalismo, o que implica pauta, cobertura, reportagem e suportes de transmissão – e daí equipe, produção constante, equipamentos etc. Não buscamos uma reprodução dogmática de doutrinas e ideologias políticas – mas admiramos a escola do contraponto, da divergência, da disputa de campo e, por isso, pautamos temas incômodos ou escamoteados da mídia de massa. Sabemos do nosso tamanho e não nos auferimos o super-poder de disputar hegemonia com a mídia grande, mas conhecemos o potencial da organização em rede e tentamos extrair o que de melhor há em conhecimento gráfico para produzir veículos atraentes e que conquistem o tempo que o leitor poderia estar investindo num grande jornal ou revista.

Conteúdo diferenciado em forma bem acabada. Não é uma receita, e nem queremos que seja. É apenas um caminho contra a ilusão de que se pode informar melhor ou conquistar credibilidade brandindo palavras de ordem em letras garrafais na capa de um tabloide.

Por tudo isso, descrito acima, considero que o recente jornal DEMOCRACIA, da Frente Brasil Popular, e produzido por profissionais ligados ao Sindicato dos Jornalistas do RS, é um exemplo muito bem acabado de como é possível ser popular sem ser popularesco, ser informativo sem ser maçante e politizar informando e não apenas brandindo palavras de ordem em letras garrafais.

Democracia Jornal

O jornal Democracia é fácil de ler, é dirigido tanto à classe trabalhadora quanto a um leitor de nível universitário e não menospreza a inteligência de ninguém. Lembrei muito do Vito Gianotti e do seu Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) ao receber este jornal tabloide de quatro páginas, em quatro cores e com textos curtos, diretos e muito informativos. Vito dava como exemplo gráfico alguns jornais comerciais muito bons e bastante lidos pela classe trabalhadora como o Metro e o Destak – de muito sucesso nos metrôs das grandes cidades brasileiras, por exemplo.

Qualquer pesquisa de opinião sobre mídia (ou qualquer profissional que já passou, como eu, por uma redação de jornal diário) sabe que Segurança Pública (crime, polícia, bandido, punição, captura) é o assunto mais lido pelo povo. Quando o jornal Democracia opta, então, por dar centralidade a uma matéria com o título “Corrupção – Punição de todos os culpados, sem poupar ninguém” e usa a foto de policiais federais em ação, está fazendo o quê? Simples: está dialogando com o leitor ao usar a estrutura narrativa e gráfica a qual o leitor mais popular está habituado. A diferença fundamental é o conteúdo da matéria. Em trechos curtos, com entretítulos, informação sobre informação. Contexto. Tópicos destacados. Numa frase: comunicação popular da melhor qualidade que não abandona o jornalismo para fazer panfleto. É o que precisamos.

De qualquer maneira, é sempre bom termos em mente o axioma do dramaturgo irlandês George Bernard Shaw: “O maior problema da comunicação é a ilusão de que ela foi alcançada”.

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