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Tau Golin: o Rio Grande se concretizou no ventre indígena

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TAU GOLIN – Foto: UFRGS

“Meios de comunicação que só repetem pastiches e não veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. É a região mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos.”

Em extraordinária entrevista concedida ao jornalista Luiz Antônio Araujo, do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o historiador Tau Golin desmonta, mais uma vez, os mitos da formação do povo gaúcho ao tratar das etnias que se miscigenaram no RS; faz uma elaborada crítica ao patrimonialismo (nos termos de Faoro); discute em altíssimo nível alguns dos problemas do PT e dos movimentos sociais; e considera o redivivo ódio religioso no Brasil como uma volta ao século XVIII. Em resumo, trata de temas bem mais candentes do que cavalos e cavalaria. [Henri Figueiredo]

Alguns trechos:
“Não existiria Rio Grande do Sul sem navegação. Ela forneceu uma plataforma de ocupação, de povoamento e de movimentação na guerra. Do ponto de vista geopolítico, o Rio Grande é uma realização da navegação. Depois da navegação, houve o uso das armas da navegação em terra, que são a artilharia e a infantaria. A cavalaria sempre foi, na história do Rio Grande do Sul, uma arma auxiliar.”
“(…) Os farrapos perderam em função do cavalo. Em 1893, os maragatos nem chegaram a ameaçar o governo do Partido Republicano Rio-grandense (PRR). Usavam cavalos de campo, imprestáveis para a guerra, sem resistência. O cavalo militar é diferente, preparado para a guerra, a começar pela alimentação. Esse cavalo a campo não tem resistência. Precisa de muita peonada para levá-lo para o pasto. Não tem precisão na guerra. Tanto é que a cavalaria maragata geralmente era enfrentada pela Brigada Militar com formações antiquíssimas, como o quadrado romano, que vem da Antiguidade — a diferença era que usavam armas de fogo em vez de flechas e lanças. Na história contemporânea, o cavalo só se presta para patrulhamento de grandes distâncias e para reprimir manifestações públicas de estudantes e operários, numa mentalidade de covardia. Mas com algumas bolitas, pregos e bombinhas, você anula essa força. É uma arma completamente inútil. A cavalaria, contemporaneamente, é a arma dos covardes, dos prevalecidos.”

ZH – Recentemente, um grupo de cidadãos da Metade Sul divulgou um documento em favor da independência da Região Sul. Esse imaginário continua contribuindo para o atraso econômico e político do Rio Grande do Sul?
“Sem dúvida. É o revir. Uso a categoria do revir, que é imaginar o presente e o futuro como uma reprodução do passado. São movimentos sociais sem devir.Isso vai levar a tudo isso que presenciamos: imaginar que são melhores, especiais, que fizeram parte de um passado glorioso. O ícone que abre essa plataforma socialmente imagética é o cavalo. Infelizmente, temos uma cultura no Rio Grande do Sul que tomou todos os setores públicos e que nos impede de ter uma força reformadora. Os funcionários públicos em geral, as pessoas que deveriam cuidar da modernização da infraestrutura, são prisioneiros desse mito de uma idade do latifúndio, baseada no cavalo. As soluções desse pessoal são todas tacanhas.”
ZH – O que seria uma solução não tacanha?
“Recuperar a vocação naval do Estado. Temos grandes rios e lagoas, que nos permitiriam ter, com investimento muito menor do que nas estradas, canais de navegação naturais, com eclusas, e artificiais. É baratíssimo frente às rodovias. Os franceses fizeram isso nos séculos 15 e 16, estabelecendo conexões entre o Mar do Norte e o Mediterrâneo a pá e picareta. O Estado não tem sequer uma secretaria que pense estrategicamente o uso das águas. Esses movimentos ficam chafurdando numa espécie de orgulho narcísico e purgam porque o Brasil e mesmo o governo de Porto Alegre não reconhecem sua grandiosa contribuição às fronteiras, à conquista dos territórios.”
ZH – É uma brasilidade envergonhada?
“Quem tem assumido essas bandeiras são indivíduos que vieram tardiamente para o Rio Grande do Sul. Esses movimentos querem ser gauchescos e, ao mesmo tempo, ter uma raiz europeia. Têm uma dupla cidadania simbólica. O que não querem ser é brasileiros. Esse gauchismo, em última instância, é um recurso de lesa-pátria, porque impede uma relação afetiva e concreta com a história brasileira. Ele aponta soluções fora da historicidade, como se nós, brasileiros, fôssemos incapazes de construir uma sociedade com um nível de civilidade superior. É por isso que, geralmente, as pessoas que estão com essas plataformas, quando não são militantes, namoram ideias de racismo e de preconceito. Essa cultura imobiliza e, ao mesmo tempo, impede que se crie uma inserção real com o passado brasileiro do Rio Grande do Sul. Possivelmente, o Rio Grande do Sul seja o Estado mais brasileiro que existe. Do ponto de vista da sua ideia de destino e da sua imaginação como sociedade, está muito vinculado ao povoamento por meio da guerra. Todas as guerras foram alimentadas por militares e recrutas buscados, às vezes com convocações não muito democráticas, em todas as regiões do Brasil.”
ZH – Desde sempre?
“Desde o início. O primeiro sujeito a trabalhar com arreios na vila de Rio Grande era um baiano trazido por Silva Tavares. O charque foi trazido por um cearense. Eram companhias de pernambucanos, baianos, mineiros e, fundamentalmente, paulistas. O Rio Grande do Sul é uma ocupação paulista e mameluca. Todas as formas de relação são muito mamelucas. A própria forma de guerrear é mameluca. Depois, vêm regimentos da Europa — de Moura, de Bragança, de Extremoz, dos Açores. Todos esses homens vão ficando como povoadores, porque recebem terras. Todos os exércitos — inclusive catarinenses, porque Santa Catarina, de certa forma, era paulista no período colonial — vão ficando como povoadores.
(…)
Recebiam terras no que chamamos hoje de zona rural e lotes nas vilas que iriam se formar. Mas o número desses indivíduos do sexo feminino era muito pequeno, quase nulo. A única possibilidade desse pessoal se estabelecer como povoador era se casando, se amasiando ou formando famílias com índias — guaranis, caingangues, choclengues, minuano, charruas. (…) (…) O Rio Grande foi um esforço lusitano e brasileiro, que se concretizou regionalmente com base no ventre indígena. Por isso, depois, vieram milhões de migrantes europeus, e mesmo assim os traços indígenas continuam aí até hoje — basta andar pela Metade Sul. Atualmente, há um fenômeno muito impressionante: migrantes no Planalto e no Alto Uruguai com um número muito significativo de mestiçagem com caingangues. Temos uma região que, do ponto de vista antropológico e social, representa o Brasil e o mundo lusitano. Mas não temos consciência disso, porque temos uma historiografia que não insiste nisso e meios de comunicação que só repetem pastiches e não veem o Rio Grande do Sul como um lugar em que a brasilidade se realizou de fato. É a região mais brasileira porque misturou o Brasil no povoamento das guerras de fronteira mantidas por paulistas, mineiros, baianos, pernambucanos. Esse processo durou dois séculos no Rio Grande do Sul. Invariavelmente, os que agenciam esse preconceito, essa ideia de um Rio Grande do Sul especial, estão assassinando mais uma vez os seus avós.”
ZH – Qual é o peso do africano nesse contexto?
“O africano é uma parte fundamental dos exércitos desde sempre. O exército luso-brasileiro que veio para a Guerra Guaranítica de 1752-1753 tinha em torno de 15% a 20% de negros, como escravos, e tinha uma vanguarda de mamelucos de 200 pessoas. A representação dentro do exército lusitano era expressiva. O próprio militar regular invariavelmente era mestiço. Muitos eram oficiais ou suboficiais. A marinharia era majoritariamente negra. Se a gente pegar a Guerra de 1776, a retomada dos fortes e da Vila de Rio Grande, que eram o núcleo principal da posse espanhola, foi feita sem nenhum cavalo. O que se usou para infiltrar os granadeiros atrás dos fortes foi um pelotão de jangadeiros pernambucanos. Criaram um estaleiro de jangadas em Rio Grande e, durante a madrugada, colocaram 200 granadeiros atrás das tropas inimigas. Não se usou nenhum cavalo.”
(…)
“(…) É preciso imaginar uma República de um ponto de vista radical, com ideias republicanas, laica, mas fundamentalmente presidida pela noção de alteridade. Isso tem de ser equalizado num patamar superior. No Rio Grande do Sul, temos setores da máquina pública e do Estado que só podem ser ocupados por algumas áreas. Temos uma série de departamentos e secretarias que só podem ser ocupados por tradicionalistas. As prefeituras alimentam esse tipo de imaginário latifundiário, da estância, entre coitados e miseráveis a cultura de gente entronizada no lombo de um cavalo. São coisas tão elementares, e isso é levado a uma cultura de massa que estabelece uma perspectiva pouco otimista sobre o Brasil. E temos a grande novidade na sociedade brasileira, que apareceu na penúltima eleição, que é o ódio religioso. O ódio religioso é um componente desesperador para imaginar o futuro brasileiro. São coisas do século 18 ou até do período medieval, e estão conduzindo os destinos de grandes populações.”
(…)
“(…) As conquistas econômicas e sociais precisam ser garantidas por um nível cultural e de uma leitura da sociedade. Outra maldição brasileira é o populismo de direita, de centro e de esquerda. Tivemos avanços na área indígena, mas esse ainda é o setor mais penalizado no Brasil. Os indígenas fazem um esforço extraordinário para assumir a possibilidade de serem sujeitos de sua história. As forças conservadoras não querem reconhecer a história indígena e sua diferença. Talvez o maior crime político do PT tenha sido a ineficiência e a falta de cuidado de suas políticas indígenas. Ficou no assistencialismo e não enfrentou, ao contrário de alguns ministros do Supremo Tribunal. Não só o governo central, mas governos estaduais como o do Rio Grande do Sul. Aqui, o governo se prestou a uma emboscada contra as representações indígenas. Por quê? Porque ainda tem uma ideia da política como luta de classe, onde o militante do partido tem a prerrogativa de estabelecer os destinos da nação. É o refugo menor dessa política do estamento: ocupa o Estado com especialistas, com a cúpula partidária, e assim determina o destino da população como se fosse reflexo da política do partido.”

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