O DIA MUNDIAL DOS TRABALHADORES PASSOU SEM QUE O POVO DO SAMBA TENHA RENDA BÁSICA E EDITAIS ANUNCIADOS DURANTE A PANDEMIA

O DIA MUNDIAL DOS TRABALHADORES PASSOU SEM QUE O POVO DO SAMBA TENHA RENDA BÁSICA E EDITAIS ANUNCIADOS DURANTE A PANDEMIA

Por Henri Figueiredo*

Em quase todos os países do mundo, o dia 1º de maio é celebrado como um dia de lutas e conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, em março de 2020, no Brasil, há uma grande apreensão num dos principais segmentos da indústria das artes, entretenimento e turismo no Rio de Janeiro e em grande parte do Brasil: como estão conseguindo viver os trabalhadores, incluindo o corpo artístico, do carnaval? Tanto do carnaval de rua quanto do carnaval de escolas de samba. Estivemos em contato com a Liesa, com a Secretaria de Cultura do Rio, com a Riotur e com a Comissão Especial de Carnaval da Câmara Municipal do Rio de Janeiro para saber por que, até agora, não foi liberada a renda básica para os trabalhadores do carnaval.

Milhares de pessoas de diferentes profissões – serralheiros, ferreiros, costureiras, artistas plásticos, profissionais de limpeza, seguranças, carnavalescos e cantores, entre outras – trabalham nos barracões e quadras das escolas de samba. Esse importante setor da economia movimenta muito dinheiro e gera milhares de empregos. Segundo informações da Riotur, o Carnaval de 2019 – que tem os dados mais consolidados – impactou R$ 3,8 bilhões na economia do Rio de Janeiro, com mais de um milhão e meio de turistas na cidade e a ocupação da rede hoteleira em mais de 90% durante o período carnavalesco.

De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, (FGV), há impactos diretos (hospedagem, alimentação e bebidas, transporte local, passeios e atrativos e compras) e indiretos (indústria fornecedora de insumos, treinamento, imobiliário, hospitais, entretenimento e logística) na economia. Em 2018, por exemplo, há apenas três anos, foram criados mais de 70 mil postos de trabalho, gerando uma arrecadação de impostos de R$ 179 milhões, sendo R$ 77 milhões de ISS para o Rio de Janeiro, de acordo com dados de uma pesquisa da FGV contidos na edição de 2019 da revista “Ensaio Geral – Informativo Oficial da Liesa”. Entre os turistas, 88% foram brasileiros, que tiveram uma permanência média de 6,6 dias e gastaram R$ 280,32 por dia (média). Já os 12% de estrangeiros, ficaram mais dias e gastaram mais também: 7,7 dias, com gasto médio de R$ 334,01.

A COMISSÃO ESPECIAL DE CARNAVAL DA CÂMARA

Desde 2017, existe a Comissão Especial de Carnaval na Câmara Municipal do Rio. A Comissão é hoje composta pelo vereador Tarcísio Motta (PSOL), pela vereadora Mônica Benício (PSOL) e pela vereadora Verônica Costa (DEM), conhecida como a Mãe Loira do Funk. A primeira reunião de instalação da comissão aconteceu na segunda quinzena de abril e uma das atribuições do grupo é se reunir com ligas, blocos, escolas de samba, foliões e pesquisadores para diagnosticar os principais desafios do carnaval carioca. O objetivo é sugerir propostas de políticas públicas para a defesa,

promoção e garantia do direito ao carnaval. Ao longo do ano a comissão faz reuniões, audiências públicas, debates e pedidos de informação à Prefeitura.

O prefeito Eduardo Paes, no dia 4 de fevereiro, anunciou uma política emergencial para os trabalhadores de escolas de samba e um edital no valor de R$ 3,2 milhões destinado ao carnaval de rua. O edital para o carnaval de rua ficou sob a responsabilidade do secretário de Cultura, Marcus Faustini. Já a Riotur cuida das questões relacionadas às escolas de samba. São questões como estas estão na pauta da Comissão Especial de Carnaval da Câmara.

“Ainda vamos decidir o cronograma das audiências públicas da Comissão Especial de Carnaval”, diz o presidente do colegiado, vereador Tarcísio Motta. “Por exemplo, faremos uma audiência sobre ‘Pandemia e Carnaval’; outra sobre o ‘Caderno de Encargos e o Carnaval de Rua’; e outra audiência sobre o ‘Carnaval na Avenida’, lista Motta. As audiências acontecerão nos próximos meses, talvez uma em maio, outra junho, a terceira em julho ou agosto, dependendo do início do recesso do legislativo municipal. São audiências em que estarão representados o governo, o Ministério Público e vários outros órgãos, ligas, além dos trabalhadores e representantes dos blocos e escolas.

DECRETO DE PAES, DO DIA 26 DE ABRIL, SINALIZA ABERTURA DE EDITAL

O prefeito Eduardo Paes publicou, no dia 26 de abril, no Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro, o Decreto Rio 48784 em que abre crédito suplementar do Orçamento da Prefeitura em favor da Secretaria de Cultura. Uma das rubricas (a ação 339031 para “premiações culturais, artísticas científicas, desportivas e outras”) leva a crer de que se trata dos recursos prometidos ao carnaval de rua.

Por outro lado, a Riotur também preparou, por decisão política do prefeito, um modelo de auxílio emergencial para os trabalhadores das escolas de samba. Fontes da Câmara e da própria Prefeitura, confirmam que este documento está sob avaliação da Procuradoria-Geral do Município (PGM). Portanto, não há, até agora, nenhuma notícia efetiva se a renda básica para os trabalhadores das escolas de sambas sairá ou não.

Apuramos que a Riotur acionou as escolas de samba para enviarem listagens de trabalhadores e trabalhadores, especialmente os dos barracões. Portanto há, de fato, um estudo para lançar uma política de renda direta para o trabalhador das escolas – repetindo: um auxílio direto ao trabalhador, e não à escola. Aos artistas, instrumentistas, ritmistas, figurinistas, marceneiros, serralheiros, aos trabalhadores das escolas – os que trabalham no barracão. A questão é: quando esse processo vai sair da PGM e ser efetivado na prática?

Enquanto isso não anda, o movimento #NósPeloSamba, da Rede Carioca de Rodas de Samba, está lançando, no Dia Internacional do Trabalhador, uma campanha de financiamento coletivo. A campanha foi lançada na quadra do Império Serrano e prevê ajudar músicos, produtores e técnicos, que estão sem fonte de renda na pandemia.

RIOTUR RESPONDE DE MANEIRA PROTOCOLAR E LIESA NÃO SE MANIFESTA

A Riotur que pela primeira vez é presidida por uma mulher, a empresária Daniela Maia (filha de César Maia e irmã gêmea do ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia), diante das questões formuladas pela reportagem foi sucinta, quase lacônica, nas respostas enviadas pela assessora de comunicação da empresa. Diante da questão se o decreto assinado pelo prefeito Eduardo Paes, em 26 de abril, realoca recursos no montante de mais R$ 3 milhões para o carnaval de rua, via edital, a Riotur responde, por e-mail: “Conforme demonstrado no decreto citado, o valor refere-se à Secretaria Municipal de Cultura”.

Em relação ao andamento do projeto de renda básica, que descobrimos estar trancado na Procuradoria-Geral do Município (PGM) – e que é urgente aos trabalhadores, trabalhadoras e corpo artístico das escolas de samba, a Riotur, em sua resposta, apenas confirmou a informação: “Sim, está para análise da Procuradoria-Geral do Município e estamos no aguardo.”.

A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) tem novo presidente desde o último dia 18 de março, portanto a menos de dois meses. Hoje a liga é presidida pelo comunicador Jorge Perlingeiro, que acompanha a Liesa há 37 anos, desde a fundação, e ocupa o posto do economista Jorge Castanheira, que integrou a diretoria da entidade ao longo de 21 anos – como presidente e como vice-presidente. O novo presidente da Liesa já foi o Diretor Social da Liga Independente de 2001 a 2012. A reportagem fez vários contatos com assessoras diretas do presidente, enviou e-mails, mensagens por aplicativos e telefones, por uma semana. A questão central é a situação de financiamento da indústria do carnaval carioca. Como está a captação de recursos públicos e privados e como (e se) a Liesa negocia com a Prefeitura (Secretaria de Cultura e Riotur). Talvez por estarem em plena negociação, ou não, a Liesa preferiu não responder neste momento – de início de nova gestão.

Em época de crise, de acordo com o auditor da Receita Federal Dão Real Pereira dos Santos, 60 anos, que é vice-presidente do Instituto Justiça Fiscal, ouvido pela nossa reportagem, os governos em vez de cortar recursos devem aumentar os investimentos pondo em prática o que em muitos lugares do mundo já está aplicado: o Estado em época de crise precisa gastar mais do que arrecada – senão a crise se aprofunda. “Em época de crise não pode limitar gastos, é preciso ampliar gastos a exemplo do que fazem os EUA, países europeus, a Nova Zelândia – que, inclusive, aumentou salários em plena a pandemia e também os tributos sobre os mais ricos”, exemplifica. Isso serve para a saúde, a segurança, a educação e serve para a grande indústria da cultura do carnaval – que, como vimos no início desta reportagem, aporta recursos bilionários aos cofres públicos, com a sua grande festa e que, nesta hora da crise extrema, vê seus trabalhadores precisando se mobilizar por conta própria na ausência dos auxílios prometidos (e devidos!) pelos governos.

*Henri Figueiredo é jornalista profissional. Mtb 12.085/RS

[Reportagem especial originalmente produzida de maneira PRO BONO para uma publicação do mundo do carnaval. A referida publicação considerou que o material jornalístico acima não se enquadra nos seus “quesitos”. Respeitamos a opinião, repudiamos a censura prévia, desejamos sucesso à referida publicação e que ela se assuma como um catálogo, uma publicação de publicidade e propaganda ou de relações públicas – todas nobres áreas da comunicação. Como disse certa vez o grande e saudoso Millôr Fernandes “”Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.”. Ou, para ser mais contemporâneo, poderia citar a baiana Pitty: “Não peço que concorde, não impeça que eu fale. Entendo que discorde, não espere que eu me cale”.]

HMF Mídias Digitais, Jornalismo e Cultura começa atividades no Rio de Janeiro

Jornalista, editor de conteúdo on-line e cinegrafista, Henri Figueiredo abre empresa de comunicação no Rio de Janeiro | Foto: Luciano F./Recreio

Desde o início de fevereiro de 2021, funciona no Rio de Janeiro uma nova empresa de produção de conteúdo para mídias digitais e social media: a HMF. O empreendimento, do jornalista Henri Figueiredo, também está formalmente habilitado para a produção executiva de espetáculos, eventos, congressos; representação artística; edição de livros, jornais e revistas impressos; filmagens e locução de eventos.

Com trajetória de 25 anos como jornalista profissional (Mtb 12.085/RS), esta é a terceira passagem de Henri Figueiredo pelo Rio de Janeiro. Nos anos 90, trabalhou no meio artístico, em produção e assistência de produção de espetáculos musicais e teatrais. Entre 2007 e 2014, foi editor-chefe de Ideias em Revista e do Jornal Contraponto, do Sindicato do Judiciário Federal. Também teve passagem de um ano como analista de comunicação na Roquette Pinto Comunicação Educativa – onde iniciou a sua especialização em mídias digitais, jornalismo on-line, social media e análise de conteúdo e métricas na Internet.

Além de repórter, cronista, articulista e editor, Henri Figueiredo tem vasta produção como repórter-cinematográfico, documentarista e roteirista. Além disso planejou, coordenou ou atuou em dezenas de campanhas educativas, governamentais e eleitorais nas últimas duas décadas, em diversos estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. A comunicação política e sindical, a crítica de arte e a crítica da mídia estão entre suas mais frequentes áreas de atuação nos últimos anos.

A HMF Mídias digitais chega para produzir reportagens ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, na Agenda 2030; produzir conteúdo jornalístico on-line e impresso sobre o acesso à justiça, justiça social, sustentabilidade ambiental e igualdade racial e de gênero. Também para atuar, no campo do audiovisual, em eventos – tanto na produção quanto na locução, reportagem, captação e transmissão de imagens. E para oferecer soluções em gerenciamento de imagem, agenciamento de carreira artística e gestão de crises.

Além disso, a HMF já inicia fazendo a cobertura jornalística de música, cultura e da arte em suas diversas e plurais manifestações –  com especial destaque para o universo do Carnaval carioca.

Conheça mais sobre a empresa em https://www.linkedin.com/in/henrifigueiredo

Conheça mais sobre Henri Figueiredo no Instagram @henriphoto

Em breve, o lançamento da página oficial da HMF, no Rio de Janeiro.

Segunda-feira
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QUEM (E O QUE) GARANTE O VOTO?

O que garante o voto? Quem garante o voto? Este artigo vai discutir algumas destas variáveis mas especialmente uma delas: a comunicação de massas – com o foco na comunicação dirigida das redes sociais

POR HENRI FIGUEIREDO*

Ao falarmos das razões de um eleitor ou uma eleitora para confirmar seu voto em determinado candidato ou candidata, seja numa eleição para síndico, para associação de bairro, para vereador(a), prefeito(a) ou para presidente da República, é preciso levar em conta uma série de variáveis quantitativas e qualitativas. A conjuntura política e social importa muito. A economia é decisiva. O grau de conhecimento do eleitorado no candidato ou na candidata tem de ser levado em conta, especialmente numa campanha como a que vivemos, em que a pandemia quebrou (ou, ao menos, atrapalhou) estratégias de aproximação com a população. Por “grau de conhecimento” não refiro apenas ao que se chama, peculiarmente, no Brasil, de “recall”. Este conceito foi retorcido numa simplificação de que se trataria apenas de consecutivas candidaturas – o que daria ao político vantagem (ou rejeição) em relação aos demais concorrentes.

De acordo com o cientista político Benedito Tadeu César, que coordenou o Programa de Pós-Graduação em Ciências Políticas UFRGS, sem dúvida os políticos mais conhecidos e principalmente aqueles que tiveram bom desempenho na eleição anterior têm vantagem em 2020. “Ainda mais porque temos um número muito grande de partidos e de candidatos, o que dificulta para o eleitor gravar todos, e também porque nossa legislação eleitoral, entre outras excrescências, impõe uma disputa individual pelo voto e, ao mesmo tempo, dificulta a divulgação dos novos candidatos”, critica Tadeu César.

Para Tadeu César, as redes, sociais se tornaram um grande instrumento, mas com um poder muito maior de destruição do que de construção de candidaturas. “Claro que, se destrói uma, outra ocupa o lugar, mas é por exclusão e não por construção. Assim, a grande arma nas redes sociais são as fake news. Há outra arma a ser utilizada nas redes, sociais que são os menes. Isso porque um grande definidor do voto é, ao lado da racionalidade e, muitas vezes, bem mais do que ela, a emoção. O eleitor vota por identificação”, explica.

Segundo o cientista político, essa é a grande arma que passou a ser utilizada com maestria pela direita nas redes sociais. A direita, lembra Tadeu César, desenvolveu técnicas de manipulação da emoção pelas redes sociais e, com isso, tem conseguido dirigir o voto de uma imensa massa que se informa mal e que é alvo fácil. “As esquerdas, para terem sucesso nesse tipo de campanha, precisarão aprender a construir propostas com conteúdo e com apelo emocional”, sugere.

OITENTA MILHÕES DE BRASILEIROS SÓ TÊM TV ABERTA

Para Felipe (Piti) Nelsis, que coordenou politicamente, na área da comunicação, oito campanhas eleitorais (seis para prefeitura e duas para o governo do estado), a propaganda eleitoral segue tendo muito peso na definição do eleitorado devido ao fato de que 80 milhões de brasileiros e brasileiras só têm acesso à informação pela TV aberta. “Quais grupos são mais imunes a esta propaganda? Os jovens, que quase abandonaram a TV em qualquer formato e a classe média que assiste fundamentalmente à TV a cabo”, analisa Nelsis.

Felipe Nelsis discorda dos dados que apontam que as pessoas se informam “prioritariamente pelas redes”. “O que aparece em primeiro lugar nas pesquisas é o noticiário (embora seja uma resposta ‘educada’ e não necessariamente verdadeira). A grande novidade é um movimento completamente obscuro, porque fora da nossa capacidade de observação, que é o Whatsapp”, diz. O experiente coordenador de comunicação política eleitoral lembra que ainda existem centenas de milhares de grupos administrados pela tropa bolsonarista que atingem grupos de família, da escola, do trabalho, da igreja etc. “Aí é onde correm as falsas construções legitimadas pelo fato que, de repente, ‘todo mundo está falando do mesmo assunto’ sem identificarmos uma origem – como aconteceria se a fonte fosse um programa eleitoral. Este é nosso desafio gigante”, destaca.

QUEM SOU, O QUE PROPONHO, CONTRA O QUE ME BATO

O jornalista Pedro Osório, que por muitos anos lecionou no Curso de Comunicação da Unisinos, considera que o fato de ser conhecido continua favorecendo significativamente o candidato. “Desde que a sua imagem não seja erodida pela nova, digamos, compreensão sobre a política, estabelecida pelas redes e suas lógicas moralistas e avessas aos políticos. Vimos, na última eleição, candidatos conhecidíssimos derrotados pela referida lógica”, registra. Pedro Osório foi secretário de Comunicação na gestão de Tarso Genro na Prefeitura de Porto Alegre entre 1993 e 1996 – pouco antes, coordenou a comunicação da campanha de Tarso para a Prefeitura, em 92. De 1989 a 1992, na gestão de Olívio Dutra na Prefeitura, foi coordenador de projetos especiais também na área da comunicação.

Na opinião de Pedo Osório, nas campanhas eleitorais, redes e mídias tradicionais (rádio, TV) são complementares, não havendo a prevalência das primeiras. “É certo que Bolsonaro tinha um espaço mínimo no horário eleitoral, mas não esqueçamos que a mídia tradicional tratou de naturalizar o seu modo de ser, enquanto fortalecia e alimentava a ideia do petismo sinônimo de corrupção e roubo. E reproduzia fake news. Veículos de imprensa nacionais, regionais e locais assim procederam. Naturalmente, devemos permanecer muito atentos às redes, pelas suas características e potência. Seja porque podem nos fragilizar, seja porque por meio delas podemos nos defender e avançar propostas, bem como ampliar a indispensável redundância”, analisa.

“Seja por qualquer meio, lembremos que seguem valendo os três pilares de uma campanha eleitoral: quem sou, o que proponho, contra o que me bato. Questões que devem ser respondidas à exaustão, privilegiando uma ou outra de acordo com a conjuntura e o desdobrar da campanha” finaliza Pedro Osório.

IGNORAR O WHATSAPP É SUICÍDIO ELEITORAL

A jornalista e social media Cris Rodrigues, atualmente editora de redes sociais no Brasil de Fato, em São Paulo, considera que as circunstâncias desta eleição tanto favorecem quem já é mais conhecido do eleitorado como também abre espaços para o surgimento de novos nomes que não fazem parte do circuito mais tradicional da política. “Pelo grande acesso às redes sociais e pelo contexto da pandemia, acredito que candidatos menos conhecidos mas que usem bem as redes têm todas as condições de se destacar”, assinala. “Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, existem vários candidatos que vêm do universo das redes sociais e estão ocupando o espaço na política. Aí eu vejo vantagem naqueles que sabem fazer a disputa nas redes. O político que já é bastante conhecido parte de outro patamar na relação com o eleitorado, mas pode ser alcançando”.

Cris Rodrigues trabalhou nas redes sociais das campanhas Tarso Genro (para governador, em 2014) e de Raul Pont (para prefeito, em 2016), foi também coordenadora de redes sociais no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, cuidando das redes do Bolsa Família de 2015 até o golpe de 2016. “Esta é uma eleição para se investir muito em redes sociais. Felizes dos candidatos e candidatas que já vinham há mais tempo construindo suas redes. Na minha opinião, quem não trabalhou bem as redes antes da eleição, acredito que agora têm poucas chances”, diz Cris.

A jornalista e social media destaca a comunicação interpessoal feita pelo Whatsapp: “Ignorar as redes, especialmente o Whatsapp, é suicídio eleitoral. Eu diria que as redes sociais podem ser, sim, o vetor de uma campanha eleitoral vitoriosa – se bem usadas. Pode ter campanha vitoriosa sem as redes? Pode, mas acho muito difícil”, arremata.

REDES, RÁDIO, TV E OLHO NO OLHO

Evidentemente, as relações comunitárias e os vínculos históricos na luta sociopolítica são variáveis importantes na conquista do voto: é o que chamamos de “base” de qualquer agente político. No entanto, na maioria dos casos, “a base política” por si só não é suficiente para alçar ou reconduzir um político a um cargo público. Daí a importância da comunicação política de massa, para além do eventual e pontual marketing eleitoral.

É certo que algumas tradições do fazer político permanecem imutáveis e fundamentais na hora da conquista do eleitor e da eleitora: o contato direto, o “olho no olho”, a escuta direta das demandas, críticas e sugestões. A restrição da relação direta com o eleitorado, porém, num ano de pandemia e necessidade de cuidados excepcionais para proteção contra o contágio e a disseminação do coronavírus, interferem drasticamente nas táticas da atual campanha.

Em cidades de médio porte, em que não há segundo turno e nem emissoras de TV, as redes, sem dúvida, cumprem o papel central na massificação da mensagem das candidaturas. Não podem ser consideradas “acessórias” e precisam ter uma ação profissional dirigida, com periodicidade de produção de conteúdo bem definida e, principalmente, uma rede orgânica de militantes e multiplicadores que deem conta de espalhar a mensagem pelas suas bolhas pessoais.

A estrutura criminosa nas redes, mundo afora, construída por nomes como Roger Stone e Steve Bannon, na Grã-Bretanha e nos EUA (e também vitoriosa no Brasil, em 2018) continua operante, principalmente no Whatsapp, e conta com robôs para espalhar desinformação. O mundo vai se dando conta de que a democracia liberal está bastante ameaçada pela manipulação de dados pessoais, disparos dirigidos a parcelas não ideológicas do eleitorado e uso de inteligência artificial para antecipar tendências. Nunca mais faremos (e ganharemos) campanhas, quaisquer que sejam, sem entender o que significa nas redes termos como alcance, engajamento, big data, conversão, trends, impulsionamento etc. Ainda que sejamos amados pelo nosso eleitorado.

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*Henri Figueiredo é jornalista, atua na área de crítica da mídia e de comunicação política. Já atuou em cinco campanhas políticas eleitorais (três de prefeito, uma de governador e uma de vereador); em quatro campanhas sindicais (três na área do Judiciário Federal e uma na dos Metalúrgicos); e em duas campanhas de Movimento Estudantil Universitário – sempre na setor da Comunicação.

PARA SABER MAIS

O FALSO DILEMA DAS REDES | No site OUTRAS PALAVRAS

A PRIVACIDADE (E A DEMOCRACIA) HACKEADA | No site JORNALISTAS LIVRES

HAMILTON MOURÃO, ONYX LORENZONI E ABRAHAM WEINTRAUB SÃO INTIMADOS PELA CÂMARA DE SÃO LEOPOLDO (RS)

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MOURÃO, ONYX E WEINTRAUB | FOTOS: AGÊNCIA BRASIL

Vereador do DEM arrolou vice-presidente, ministro e ex-ministro como testemunhas em Comissão Processante da cassação de seu mandato

Por HENRI FIGUEIREDO*

O vice-presidente da República Hamilton Mourão (PRTB), o ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni (DEM) e o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que atualmente é um dos diretores-executivos do Banco Mundial, em Washington (EUA), foram intimados a depor, como testemunhas, em processo que tramita na Câmara de Vereadores de São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A situação inusitada se deu a partir do Requerimento 127/2020 proposto pelos vereadores Perci Pereira e David dos Santos (ambos do PP), para a cassação do mandato do colega Marcelo Buz (DEM). Buz é acusado de utilizar-se de uma “licença de interesse particular”, expedida pela Câmara Municipal em janeiro de 2019, para ocupar a presidência do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) – uma autarquia federal ligada à Casa Civil da Presidência da República, em Brasília (DF). Com a exoneração de Buz do ITI, em junho, ele retornou às sessões virtuais da Câmara de São Leopoldo. Com isso, o vereador Perci Pereira (PP), que era suplente e tinha assumido a vaga em 2019, perdeu a cadeira na Câmara.

Uma das acusações é de que o vereador Marcelo Buz (DEM) teria desrespeitado a Lei Orgânica do Município de São Leopoldo que define que vereadores só podem licenciar-se para ocupar outros cargos políticos em âmbito municipal. O requerimento está em tramitação desde o dia 15 de junho de 2020. A Câmara de Vereadores definiu, por sorteio, a instalação de uma Comissão Processante que é presidida pela vereadora Iara Cardoso (PDT) e composta pelos vereadores Armando Motta (PRB) e Nestor Schwertner (PT) – que é o relator do processo.

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MARCELO BUZ (DEM) ex-presidente do ITI, que reassumiu o cargo de vereador

Tudo isso acontece no município de São Leopoldo, cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre que tinha, de acordo com o IBGE, 236 mil habitantes em 2019. E 164 mil eleitores, segundo os dados mais atualizados do TRE-RS. A Câmara Municipal de São Leopoldo tem 13 vagas de vereador(a).

COM OS CORREIOS EM GREVE, INTIMAÇÕES FORAM VIA CARTÓRIO DE NOTAS DO DF

De acordo com a presidente da Comissão Processante, Iara Cardoso (PDT), a intimação do vice-presidente e do ministro da Cidadania se deu via Cartório de Notas de jurisdição do Palácio do Planalto. O amparo legal, segundo Iara, é a utilização do Código de Processo Penal (CPP) de forma subsidiária ao Decreto n. 201/67. “Entretanto, mesmo com o trâmite mais burocrático e lento das intimações pelo rito do CPP, o prazo mais importante da comissão é o prazo final do término dos trabalhos, que não pode ultrapassar o dia de 11 de outubro”, explica a vereadora.

A intimação de Weintraub, por sua vez, se deu de forma eletrônica, pelo e-mail de cada testemunha fornecido pela defesa do vereador Marcelo Buz (DEM), já que ele hoje é um dos diretores-executivos do Banco Mundial e reside em Washington, capital dos EUA.

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Vereadora Iara Cardoso (PDT) é a presidente da Comissão Processante

A Comissão Processante ampliou o prazo para oitivas das testemunhas até 17 de setembro. A vereadora Iara Cardoso reforça: “Todas as testemunhas arroladas são da defesa, assim, já foi informado para a defesa, em mais de uma oportunidade, que esse é o prazo derradeiro para a oitiva das testemunhas. Assim, deve haver contrapartida da defesa em conduzir as testemunhas até a sala virtual em que ocorrem as reuniões, ou seja, se as testemunhas arroladas não têm caráter apenas protelatório, a defesa trabalhará no sentido de ouvi-las, como já mostrou interesse. Como as reuniões são virtuais, as testemunhas podem participar de qualquer lugar do Brasil ou do mundo, desde que tenham acesso à internet”.

Após essa data limite de 17 de setembro, abre-se o prazo de cinco dias para o denunciado apresentar suas razões escritas. “Após o recebimento das razões do denunciado a comissão emite parecer final pela procedência ou improcedência da denúncia, solicitando ao Presidente da Câmara que marque a Sessão de Julgamento”, detalha a vereadora que preside a Comissão Processante.

O QUE A DIZ A BANCADA DO PP, AUTORA DO REQUERIMENTO DE CASSAÇÃO

Segundo o suplente de vereador Perci Pereira que, com o atual vereador David Santos, formou a bancada do Partido Progressista (PP) na Câmara Municipal de São Leopoldo até junho, a expectativa é a de que a Comissão Processante atue “para restaurar a legalidade”. Afastado do cargo com o retorno de Marcelo Buz (DEM) a São Leopoldo, Perci Pereira é incisivo: “O ex-presidente do ITI sabe que incorreu em conduta expressamente vedada pela Lei Orgânica e legislação correlata”. De acordo com Perci, “a tentativa dos defensores de Buz é criar ocasião para que a comissão incorra em nulidade, utilizar-se do judiciário e forçar a perda do objeto. Em síntese, o Marcelo Buz conta com a impunidade, sua única aliada”, diz Perci Pereira.

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Ex-vereador e suplente PERCI PEREIRA, do PP, que requereu a cassação de Buz

Sobre o fato de o vereador Marcelo Buz ter arrolado testemunhas que são figuras proeminentes da República, Perci Pereira afirma que “não lhe cabe fazer juízo de valor a respeito”. “Apenas vejo que, na ausência de argumento real capaz de enfrentar no âmbito da legalidade a questão, se busca desvirtuar o tema. A lei impõe noventa dias e nada mais para a resolução da controvérsia pela Comissão Processante. Está absolutamente claro que o mandato pertence legalmente a nós. Aguardamos celeridade e justiça na decisão da Câmara de Vereadores’, conclui.

DEFESA DE BUZ AFIRMA QUE PROCESSO É REPLETO DE NULIDADES

A reportagem entrou em contato com o vereador Marcelo Buz (DEM) que, por sua vez, encaminhou o Whataspp de seu advogado Marcelo de La Torres Dias. Em breve nota, Torres Dias registrou: “Processo de cassação eivado de vícios e nulidades. Deverá ser arquivado já na via administrativa, visto não possuir sequer objeto. Caso optem por tentarem cassar o mandato de forma política e sem materialidade jurídica, iremos ao judiciário para assegurar o direito do vereador Marcelo Buz em exercer seu mandato”. O vereador e a defesa preferiram não comentar sobre o arrolamento do vice-presidente Hamilton Mourão, do ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni e do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub como suas testemunhas no processo.

CONHEÇA A ÍNTEGRA DO REQUERIMENTO E DO PROCESSO DO VEREADOR MARCELO BUZ (DEM), DE SÃO LEOPOLDO, NESTE LINK: https://legis.camarasaoleopoldo.rs.gov.br/?sec=proposicao&id=8056

Fotos dos vereadores e da vereadora: FONTE | SITE DA CÃMARA MUNICIPAL DE SÃO LEOPOLDO

*Henri Figueiredo é jornalista profissional | MtB 12.085

DIA DO JORNALISTA E ANIVERSÁRIO DE 7 ANOS DESTE SITE, BLOG, SÍTIO, JORNAL

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7 de abril — OS EXTREMOS, À ESQUERDA E À DIREITA, NOS DETESTAM E TENTAM CONTROLAR. Os pragmáticos da política adoram o nosso trabalho quando são oposição mas criam obstáculos para o mesmo trabalho quando estão no poder. Os conservadores têm ojeriza porque a profissão teve origem liberal – ainda que hoje a imensa maioria dos profissionais seja assalariada. As polícias, o exército e as forças de repressão estatal, em geral, nos desprezam e nos temem, ao mesmo tempo, numa dicotomia esquizofrênica. Traficante de favela e corrupto do colarinho branco sempre que podem executam sumariamente. A maioria dentre nós, na mídia comercial do Brasil, chama o patrão de “colega”.

Vou “chupar”, como dizíamos nas redações dos anos 90, um trecho inteiro do grande escritor, psicanalista e teólogo Rubem Alves (1933–2014) para dizer algo duro. Diz Alves: “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre o que me calei:”

Digo eu, há uma casta que cresceu de maneira acelerada entre 2000 e 2020 que considera que “ser jornalista” é “ser jornalista diplomado” e que se acha superior ao trabalho do ilustrador, do fotógrafo e do cinegrafista (todos também legalmente da “categoria”); que despreza o radialista; que odeia o ‘precário’; que reproduz um corporativismo míope e de um elitismo podre; que escreve mal, apura mal, interpreta mal, investiga mal, mas – se estiver em cargos públicos nos concursos feitos principalmente pela Esquerda – ganham tanto quanto qualquer experiente editor da mídia comercial tendo a mamata de um terço da carga horária e um quinto da cobrança de entrega. Ah, sim! Temos também os jornalistas-barnabés. Evidente que as relações de trabalho aviltantes devem ser combatidas. Mas também acho escandaloso que se cale para os privilégios dessas castas incrustadas no aparato do Estado, em todas as esferas, produzindo qualquer coisa entre as Relações Públicas, o Marketing Político e a Publicidade e Propaganda. Menos Jornalismo.

Cada vez mais as universidades preparam para operar sem pensar e nem pensar em questionar ‘o mercado’. Ainda assim, nossos sindicatos e federação (que são grandes associações de assessores de imprensa, muito mais do que de ‘profissionais de campo’) continuam numa guerra fratricida e corporativista pela ‘obrigatoriedade do diploma’ como se expurgo fosse o mesmo que panaceia.

Você sabe por que se comemora o Dia do Jornalista em 7 de abril?

A versão mais consistente para a escolha desta data como Dia do Jornalista remonta ao período do Império: a data é comemorada em 7 de abril em homenagem a João Batista Líbero Badaró, médico e jornalista que morreu assassinado por inimigos políticos, em São Paulo, em 22 de novembro de 1830; essa morte gerou o movimento que levou à abdicação de D. Pedro I, no dia 7 de abril de 1831. Por causa disso, a data foi escolhida para marcar a fundação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), por Gustavo de Lacerda, em 1908. E a própria ABI foi quem a instituiu como Dia do Jornalista nas comemorações de um século da abdicação de D. Pedro I, em 1931.

É emblemático que, no Brasil, o Dia do Jornalista seja o dia da renúncia (ou seja, da queda) do nosso primeiro governante como país ‘independente’. Noutras palavras: o golpismo parece mesmo que está no DNA do jornalismo do Brasil. SQN!

Lembro agora Claudio Abramo, Nando d´Ávila, Eliane Brum, Vladimir Herzog, Adelmo Genro Filho, Vito Giannotti, Cynara Menezes, Katia Marko, João Maneco, Evania Reichert, José Otávio (Dedé) Ferlauto e tantos outros, amigos, amigas, ou distantes, que me inspiraram e inspiram na profissão – aqui fisicamente presentes ou presentes em espírito no ofício.

Apesar de tudo, aos meus colegas, FELIZ DIA D@ JORNALISTA!

Henri Figueiredo

OS SAMBAS-ENREDO DO RIO EM 2020

Carnaval-Ambulante

PRONTO! Chegou a hora de comentarmos os sambas de enredo do Rio de Janeiro em 2020. Desta vez, bem em cima do laço, como diria minha saudosa avó, mas tá valendo. A vida anda dura, rapaziada. Mas já desanuviou, viu?! Agora só cortinas de fumaça vindas de Brasília, mas a gente fuma, traga e samba que não tem tempo ruim para quem é da cultura popular. No domingo começam os desfiles competitivos do Grupo Especial na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – vulgarmente conhecida como “Marquês de Sapucaí”, nome da rua onde o espetáculo acontece no bairro da Cidade Nova, ao lado do Estácio, na região central do Rio de Janeiro. (Saiba mais no link https://goo.gl/1zyCXR ). Como tenho feito há alguns anos, comento samba a samba equilibrando a minha percepção mais intuitiva de ouvinte e amante do carnaval com algumas informações que podem ajudar aos leitores a se situar melhor em relação à história recente da festa. Não tenho a pretensão e nem a qualificação necessária para formular críticas mais elaboradas sobre composição, arranjo de bateria e nem sobre o enredo propriamente dito – deixo esta tarefa para os amigos e amigas especialistas e profissionais do Carnaval. Reforço, portanto, de que se trata apenas de um prazeroso exercício de um ouvinte que é apaixonado pela música e pelo carnaval. Nesta publicação para o Facebook vou compilar alguns breves comentários. [E como estou atrasado, as últimas linhas todas foram copia-cola de um texto meu mesmo do ano passado – me autoplagiei! Rá! Segura essa Joice Hasselmann.]

A ordem dos desfiles é a seguinte: DOMINGO, 23 de fevereiro: 1) Estácio de Sá 2) Viradouro 3) Mangueira 4) Paraíso do Tuiuti 5) Grande Rio 6) União da Ilha e 7) Portela. SEGUNDA, 24 de fevereiro: 1) São Clemente 2) Vila Isabel 3) Salgueiro 4) Unidos da Tijuca 5) Mocidade e 6) Beija-Flor.

Contudo, todavia, porém, eu sempre opto por seguir nos meus comentários a ordem dos sambas no álbum oficial da Liesa, disponível no Spotify.

MANGUEIRA

MANGUEIRA

Depois do carnaval campeão de 2019, a Estação Primeira de Mangueira escolheu na quadra, para 2020, o samba de dois dos autores do samba inesquecível do ano passado sobre as “Marias, Mahins, Marielles, Malês”: o casal Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. Ele, aliás, teve seu samba “Madureira sobe o Pelô”, para a Portela em 2012, eleito o “Samba da Década”. Quem acompanha este site, sabe que eu cravei o óbvio no ano passado: o samba de 2019 era o mais belo e já nascia clássico antes de ser testado na avenida. Ganhou. Claro que a expectativa sobe depois de um carnaval fantástico como a Mangueira fez em 2019. Acompanhei desde a disputa na quadra o samba deste ano e, confesso, fiquei um tanto decepcionado com a gravação no disco oficial da Liesa. Parece que a bateria perdeu “peso”. O tema #JesusDaGente rendeu um samba de novo muito posicionado politicamente e crítico, com sói acontecer com a poesia de Manu da Cuíca. Sofreu algumas alterações para dar mais fluidez ao canto. Eu gostava da versão original mais sincopada mas também mais difícil de cantar – motivo pelo qual perdeu alguns versos. A escola precisa respirar enquanto canta e desfila. Sobre a letra em si, é chover no molhado falar da qualidade da compositora. Destaco a levada funk num determinado momento: “Favela, pega a visão | Não tem futuro sem partilha | Nem Messias de arma na mão”. Mais claro, impossível. Salve a comunidade da Mangueira, o carnavalesco Leandro Vieira, Manu e Máximo! Olha que máximo: https://www.youtube.com/watch?v=8p0qxZre1cE

Mangueira

Samba que o samba é uma reza

Se alguém por acaso despreza

Teme a força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra do Buraco Quente

Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque de novo cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem Messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço fé na minha gente

Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir

O desabafo sincopado da cidade

Quarei tambor, da cruz fiz esplendor

E ressurgi no cordão da liberdade

UNIDOS DO VIRADOURO

VIRADOURO

Assim como no ano passado, a Viradouro vem com um samba que atende bem ao enredo mas sem nenhuma polêmica ou posicionamento mais crítico à conjuntura. “Viradouro de alma lavada” é o tema. Gostei, levemente, mais do samba do ano passado. Mas a melodia deste samba é boa e o arranjo no disco é muito bom. Gostoso de ouvir, bom de sambar. Importante apontar que sofreu várias alterações do original até a versão que vai pra avenida. Veja: https://www.youtube.com/watch?v=xBqTqZQEznc

Oh mãe ensaboa

Mãe ensaboa pra depois quarar

Ora yê yê o oxum! Seu dourado tem axé

Faz o seu quilombo no Abaeté

Quem lava a alma desta gente veste ouro

É Viradouro! É Viradouro!

Levanta preta que o Sol tá na janela

Leva a gamela pro xaréu do pescador

A alforria se conquista com o ganho

E o balaio é do tamanho do suor do seu amor

Mainha, esses velhos areais

Onde nossos ancestrais

Acordavam as manhãs

Pra luta

Sentem cheiro de angelim

E a doçura de quindim

Na bica de Itapuã

Camará ganhou a cidade

O erê herdou liberdade

Canto das Marias, baixa do dendê

Chama a freguesia pro batuquejê

São elas dos anjos e das marés

Crioulas do balangandã, ô iaiá

Ciranda de roda na beira do mar

Aguadeira que benze e vai pro terreiro sambar

Nas escadas de fé

É a voz da mulher!

Xangô ilumina a caminhada

A falange está formada

Um coral cheio de amor

Kaô! O axé vem da Bahia

Nesta negra cantoria

Que Maria ensinou

Oh mãe ensaboa

Mãe ensaboa pra depois quarar

UNIDOS DE VILA ISABEL

VILA ISABEL

A Vila traz um samba digno neste ano. Bem melhor do que o samba “Pai João” lamentável do ano passado. A Vila Isabel, escola de Noel, em 1988 apresentou aquele que é, na minha opinião, o maior samba-enredo de todos os tempos: “Kizomba – A Festa da Raça”, do grande e saudoso Luiz Carlos da Vila. Neste ano, a Vila conta a história da cidade de Brasília como uma lenda indígena, referencia os demais povos brasileiros que povoaram a região depois dos indígenas e, claro, de novo não entra em polêmica política. Um desperdício do enredo, na minha modesta opinião. Mas, vá lá Vila! Assista: https://www.youtube.com/watch?v=JVvPLi3OCLY

Brasília joia rara prometida

Que a Nossa Senhora de Aparecida

Estenda seu manto

Pro povo seguir

Sou da Vila não tem jeito, fazer samba é meu papel

Fiz do chão do Boulevard, meu céu

‘Paira no ar’ o azul da beleza

Gigante pela própria natureza

Sou eu!

Índio filho da mata

Dono do ouro e da prata

Que a terra mãe produziu

Sou eu!

Mais um Silva pau de arara

Sou barro marajoara

Me chamo Brasil

Aquele que desperta a cunhatã

Pra ouvir Jaçanã sussurrar ao destino

O curumim, o piá e o mano

Que o vento minuano também chama de menino

Do Tapajós

Desemboquei no Velho Chico

Da negra Xica, solo rico das Gerais

E desaguei em fevereiro

No meu Rio de Janeiro terra de mil carnavais

Ô viola!

A sina de Preto Velho

É luta de quilombola, é pranto é caridade

Ô fandango!

Candango não perde a fé

Carrega filho e mulher

Pra erguer nova

Cidade

Quando a cacimba esvazia

Seca a água da moringa

Sertanejo em romaria é mais forte que mandinga

Assim nasceu a flor do cerrado

Quando um cacique inspirado

Olhou pro futuro

E mandou construir

Brasília joia rara prometida

Que a Nossa Senhora de Aparecida

Estenda seu manto

Pro povo seguir

Sou da Vila não tem jeito, fazer samba é meu papel

Fiz do chão do Boulevard, meu céu

‘Paira no ar’ o azul da beleza

Gigante pela própria natureza

PORTELA

PORTELA

Guajupiá é, segundo a mitologia tupi-guarani, o paraíso para onde vão os espíritos dos mortos. Salve Oswaldo Cruz e Madureira! Fôssemos nós dar ouvidos a certos militontos, neste Carnaval a minha Portela estaria “cancelada” (a palavra da moda). E chegamos ao primeiro samba do disco que conseguiu conjugar de maneira excepcional letra e arranjo de bateria. Lindo! Ainda que a plêiade de expressões tupi deixem o samba difícil de cantar para o público em geral, que melodia e que levada! E mesmo quando a letra tentou me frustar (“Nossa aldeia é sem partido ou facção”) em seguida me ganhou com o verso: “Não tem bispo nem se curva a capitão!”. Eitcha, que a Portela nos últimos anos assumiu o tacape da Resistência, assim como a Mangueira, diga-se. E, de boas, eu queria La Negrini em alguma das alas da Portela. De índia, claro. Obrigado, de nada. Índio pede paz mas é de guerra! Pode se emocionar no clipe: https://www.youtube.com/watch?v=BEMYuC6nl2I

Índio é Tupinambá

Índio tem alma guerreira

Hoje meu Guajupiá é Madureira

Voa águia na floresta

Salve o samba, salve ela

Índio é dono desse chão

Índio é filho da Portela

Clamei aos céus

A chama da maldade apagou

E num dilúvio a terra ele banhou

Lavando as mazelas com perdão

Fim da escuridão

Já não existe a ira de Monã

No ventre há vida, novo amanhã

Irim Magé já pode ser feliz

Transforma a dor na alegria de poder mudar o mundo

Mairamuãna tem a chave do futuro

Pra nossa tribo lutar e cantar

Aue, aue a voz da mata, oke, oke aro

Se Guanabara é resistência

O índio é arco, é flecha, é essência

Ao proteger karioka

Reúno a maloca na beira da rede

Cauim pra festejar… purificar

Borduna, tacape e ajaré

Índio pede paz mas é de guerra

Nossa aldeia é sem partido ou facção

Não tem bispo, nem se curva a capitão

Quando a vida nos ensina

Não devemos mais errar

Com a ira de Monã

Aprendi a respeitar a natureza, o bem viver

Pro imenso azul do céu

Nunca mais escurecer (bis)

Índio é Tupinambá

Índio tem alma guerreira

Hoje meu Guajupiá é Madureira

Voa águia na floresta

Salve o samba, salve ela

Índio é dono desse chão

Índio é filho da Portela

ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

SALGUEIRO

O Salgueiro vai cantar a vida e obra de Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil. E é tão estranho não ouvir um samba afro no Salgueiro, vou te contar! Com toda a reverência possível à bateria Furiosa, inclusive na gravação do álbum da Liesa, foco deste texto, este não é um mau samba, mas é o pior dos últimos anos do Salgueiro. Depois do magnífico e inesquecível “Ópera dos Malandros”, de 2016, e do excelente “Xangô”, de 2019, esperava muito mais do Salgueiro. Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0CqyvGyaUJo

Na corda bamba da vida me criei

Mas qual o negro não sonhou com liberdade?

Tantas vezes perdido, me encontrei

Do meu trapézio saltei num voo pra felicidade

Quando num breque, mambembe moleque

Beijo o picadeiro da ilusão

Um novo norte, lançado à sorte carnaval 2020

Na “companhia” do luar…

Feito sambista…

Alma de artista que vai onde o povo está

E vou estar com o peito repleto de amor

Eis a lição desse nobre palhaço

Quando cair, no talento, saber levantar

Fazer sorrir quando a tinta insiste em manchar

O rosto retinto exposto

Reflete no espelho

Na cara da gente um nariz vermelho

Num circo sem lona, sem rumo, sem par…

Mas se todo show tem que continuar

Bravo!

Há esperança entre sinais e trampolins

E a certeza que milhões de Benjamins

Estão no palco sob as luzes da ribalta

Salta menino!

A luta me fez majestade

Na pele, o tom da coragem

Pro que está por vir…

Sorrir e resistir!

Olha nos aí de novo

Pra sambar no picadeiro

Arma o circo, chama o povo, Salgueiro!

Aqui o negro não sai de cartaz

Se entregar, jamais!

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

MOCIDADE

“É hora de acender no peito a inspiração”. “Elza Deusa Soares” por si só já é um enredo grandioso. E que samba, senhoras e senhores! Que samba! O primeiro do álbum que te faz arredar os móveis da sala, saca? Uma das autoras é a (ex? coxinha) Sandra de Sá. “Brasil, enfrenta o mal que te consome!” É contagiante pela letra, pelo arranjo de bateria, pela interpretação sempre matadora do Wander Pires. E um dos refrões é chiclete: “Laroyê ê Mojubá | Liberdade | Abre os caminhos pra Elza passar | Salve a Mocidade! | Essa nega tem poder”. Salve a Mocidade! “Sei que é preciso lutar com as armas de uma canção!”. Um samba de RESISTÊNCIA, como não poderia deixar de ser ao falar da Elza. Olha que lindo o clipe: https://www.youtube.com/watch?v=4IwkkhwsYAc

Laroyê ê Mojubá

Liberdade

Abre os caminhos pra Elza passar

Salve a Mocidade!

Essa nega tem poder

É luz que clareia

É samba que corre na veia

Lá vai, menina

Lata d’água na cabeça

Esqueça a dor

Que esse mundo é todo seu

Onde a água santa foi saliva

Pra curar toda ferida

Que a história escreveu

É sua voz que amordaça a opressão

Que embala o irmão

Para a preta não chorar

Se a vida é uma aquarela

Vi em ti a cor mais bela

Pelos palcos a brilhar

É hora de acender

No peito a inspiração

Sei que é preciso lutar

Com as armas de uma canção

A gente tem que acordar

Da “lama” nasce o amor

Quebrar as agulhas

Que vestem a dor

Brasil

Esquece o mal que te consome

Que os filhos do Planeta Fome

Não percam a esperança

Em seu cantar

Ó nega!

Sou eu que te falo em nome daquela

Da batida mais quente

O som da favela

A resistência em nosso chão

Se acaso você chegar

Com a mensagem do bem

O mundo vai despertar

Deusa da Vila Vintém

Eis a estrela

Meu povo esperou tanto pra revê-la

Laroyê ê Mojubá

Liberdade!

Abre os caminhos pra Elza passar

Salve a Mocidade!

Essa nega tem poder

É luz que clareia

É samba que corre na veia

UNIDOS DA TIJUCA

Como sempre lembro, eu tenho relação afetiva com a comunidade do Borel. Morei no pé do Morro, na Usina, por quatro anos – no auge de Paulo Barros como carnavalesco campeão pelo Pavão e que agora está de volta. No ano passado, a Tijuca veio com um samba melodicamente muito bonito e politicamente muito exxxperto, alinhando com os católicos na guerra santa que virou a política carioca dominada pelos neopentecostais do bispo-prefeito. O samba de 2020 foi encomendado, sem disputa, aos pesos-pesados Jorge Aragão, Dudu Nobre, Totonho, André Diniz e Fadico. É, talvez, o mais emotivo deste ano, poético, lírico, cantando o Borel. “Todo mundo sonha um dia ter o seu cantinho na cidade”. Dignidade não é luxo nem favor, canta a Tijuca. E eu canto junto! Veja: https://www.youtube.com/watch?v=6LJUHNImNX4

O sonho nasce em minha alma

Vai tomando o peito e ganhando jeito

Se eternizando, traduzido em forma

O mais imperfeito, perfeição se torna

Lá no meu quintal, eu vou fazer um bangalô

Já foi tapera feita em palha e sapê

E uma capela que a candeia aluminou

A lua cheia…

Vem, é lindo o anoitecer

Vai, eu morro de saudade

Tomo mundo um dia sonha ter

Seu cantinho na cidade

Como é linda a vista lá do meu Borel

Luzes na colina, meu arranha-céu

Linhas do arquiteto, a vida é construção

Curva-se o concreto, brilha a inspiração

Lágrima desce o morro

Serra que corta a mata

Mata, a pureza no olhar

O Rio pede socorro

É terra que o homem maltrata

E meu clamor abraça o Redentor

Pra construir um amanhã melhor

O povo é o alicerce da esperança

O verde beija o mar, a brisa vai soprar

O medo de amar a vida

Paz e alegria vão renascer

Tijuca, faz esse meu sonho acontecer

A minha felicidade mora nesse lugar

Eu sou favela

O samba no compasso é mutirão de amor

Dignidade não é luxo nem favor

PARAÍSO DO TUIUTI

TUIUTI

Quem não lembra do clássico samba do Tuiuti de 2018, do mestre Moacyr Luz, que cantava: “Meu Deus, meus Deus, se eu chorar não leve a mal; pela luz do candeeiro liberte o cativeiro social. (…) Não sou escravo de nenhum senhor, meu paraíso é meu bastião, meu Tuiuti, o quilombo da favela é sentinela da libertação”. A escola foi a justa vice-campeã com este samba, mas considerada a “campeã moral” com este samba belíssimo e um desfile arrebatador. No ano passado, o Tuiuti fez um samba que referenciou o crime ambiental de Brumadinho. Neste ano de 2020, a escola que tem relação forte com o padroeiro do Rio, São Sebastião (Oxóssi no sincretismo carioca), começa com o grito de “A luta continua, meu povo!” e brinca com a referência também a Dom Sebastião, o mítico rei de Portugal que se deu origem a um movimento messiânico. De novo, Moacyr Luz está entre os autores e a sua levada é inconfundível. É um samba bom de dançar e, me parece, tem tudo pra levantar a avenida. Peca, no meu entendimento, por estar apenas bem amarrado no enredo que relaciona os dois ‘Sebastiões’. Sei lá, me acostumei nos últimos anos com sambas politicamente bem posicionados do Tuiuti. O clipe oficial da Liesa: https://www.youtube.com/watch?v=705oh8I7XtM

Todo 20 de janeiro

Nos altares e terreiros

Pelos campos de batalha

Uma vela pro divino

O imperador menino

Um Sebastião não falha

Nas marés, o desejado

Infiéis pra todo lado

Enfrentou a lua cheia

No deserto, um grão de areia

Dom Sebastião vagueia

Sem futuro, nem passado… (laiá laiá)

Renasce sob nós, um caboclo encantado

Na Praia dos Lençóis, é o touro coroado

Vestiu bumba-meu-boi

Até mudou o fado

No couro do tambor foi batizado

Poeira, ê! poeira!

Pedra bonita pôs o santo no altar

Sangrou a terra, onde a paz chorou a guerra

Mas ele vai voltar!

Rio, do peito flechado

Dos apaixonados

Rio-batuqueiro

Oxóssi, orixá das coisas belas

Guardião dessa aquarela

Salve o Rio de Janeiro!

Orfeus tocam liras na favela

A cidade das mazelas

Pede ao santo proteção

Grito o teu nome no cruzeiro

Ó padroeiro! Toda minha devoção!

No Morro do Tuiuti

No alto do Terreirão

O cortejo vai subir

Pra saudar Sebastião

ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

GRANDE RIO

“Eu respeito seu amém, você respeita o meu axé!” canta a Grande Rio que vem, de novo, vem com bom samba afro! Axé! Num ano em que o Salgueiro abdicou dessa tradição, a Grande Rio, do “Quilombo Caxias”, retoma uma tradição que também é sua, cantando as religiões de matriz africana e Oxóssi (que, aliás, é o meu santo de cabeça – já me disseram em terreiros). Em 2019, eu já tinha gostado muito do fortíssimo samba-afro da escola, cantando Xangô: foi um dos mais bonitos do ano. Agora “os ogans batuqueiros pedem paz” e eu adorei esse samba! Carnaval não é carnaval sem escola cantando abertamente e com orgulho o candomblé. Assistam: https://www.youtube.com/watch?v=E6KMBblODV0

É pedra preta!

Quem risca ponto nesta casa de caboclo

Chama flecheiro, lírio e arranca toco

Seu “serra negra” na jurema, juremá

Pedra preta!

O assentamento fica ao pé do dendezeiro

Na capa de Exu, caminho inteiro

Em cada encruzilhada um alguidar

Era homem, era bicho flor

Bicho homem pena de pavão

A visão que parecia dor

Avisando salvador, João!

No camutuê Jubiabá

Lá na roça a gameleira

“Da Goméia” dava o que falar

Na curimba feiticeira

Okê! Okê Oxóssi é caçador

Okê! Arô! Odé!

Na paz de zambi, ele é mutalambo!

O alaketo, guardião do agueré

É isso, dendê e catiço

O rito mestiço que sai da Bahia

E leva meu pai mandingueiro

Baixar no terreiro quilombo caxias

Malandro, vedete, herói, faraó

Um saravá pra folia

Bailam os seus pés

E pelo ar o bejoim

Giram presidentes, penitentes, yabás

Curva-se a rainha

E os ogans batuqueiros pedem paz

Salve o candomblé, eparrei Oyá

Grande Rio é Tata Londirá

Pelo amor de Deus, pelo amor que há na fé

Eu respeito seu amém

(Você respeita meu axé)

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

UNIÃO DA ILHA

Eu não consigo falar da União da Ilha sem lembrar o samba-enredo clássico “É Hoje”, de 1982. “É hoje o dia da alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar. Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu”. Não tem quem não conheça, mesmo que não goste de Carnaval. Neste ano de 2020, a Ilha vem com um samba bem melhor do que o do ano passado – uma das decepções de 2019. O samba deste ano tem passagens bonitas mas não passa de razoável, eu diria. O clipe está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-M5SCuZH1Xk

Senhor… Eu sou a Ilha

E no meu ventre essa verdade que impera

Que é invisível entre becos e vielas

De quem desperta pra viver a mesma ilusão

E vai trabalhar

Antes do sol levantar de novo

A voz do rancor não cala meu povo não

Sou mãe dignidade é meu destino

Rogo em prece meus meninos

Ao longe alguém ouviu

Meus filhos são filhos dessa mãe gentil

Inocentes culpados, são todos irmãos

Esse nó na garganta vou desabafar

O chumbo trocado, o lenço na mão

Nessa terra de deus dará…

Eu sei o seu discurso oportunista

É a ganância, hipocrisia

O seu abraço é minha dor (seu doutor)

Eu sei que todo mal que vem do homem

Traz a miséria e causa fome

Será justiça de quem esperou

O morro desce o asfalto e dessa vez

Esquece a tristeza agora..

É hoje, o dia da comunidade

Um novo amanhã, num canto de liberdade

A nossa riqueza é ser feliz

Por todos os cantos do país

Na paz da criança o amor da mulher

De gente humilde que pede com fé

BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS

BEIJA-FLOR

REINA FIRME NA ENCRUZILHADA | É impressionante com a Beija-Flor vive uma safra de sambas magníficos. Eles não erram no samba, ainda que seja comum o desfile destruir com as propostas dos poetas na avenida. Assim com o a Mocidade, a Beija-Flor neste ano traz a saudação afro a Exu: “Laroyê ê Mojubá” e vem com o MELHOR conjunto de lírica + arranjo de bateria + interpretação, de novo com o Neguinho da Beija-Flor. Eu que fui Mangueira e sou Portela, tenho uma bronca histórica com a escola de Nilópolis – sempre muito ligada à Globo e ao establishment do show business do Carnaval. Mas como aqui a análise é do samba-enredo, tenho de fazer justiça: de fato, este samba é uma pedrada! Arreda tudo e aumento o som: “Segura o povo que o povo é dono da rua! Ô corre, gira, que a rua é do Beija-Flor!”. Irresistível! De todos do álbum, é o que mais me dá prazer em deixar em looping no Spotify. Ouçam! E assistam: https://www.youtube.com/watch?v=WmkGK_51cfU

Preceito!

Minha fé pra seguir nessa estrada

Odara ê! Reina firme na encruzilhada

Abram os caminhos do meu Beija-Flor

Por rotas já trilhadas no passado

O tempo de tormentas que esse mar levou

Revelam este novo eldorado

Nas trilhas da vida… desbravador!

Destino traçado… vencedor!

Nos becos da solidão

Moleque de pé no chão

E nessas andanças eu sigo teus passos

São tantas promessas de um peregrino

É crer no milagre, sagrados valores

Em tantos altares, em tantos andores

A vela que acende a dor que se apaga

A mão que afaga se torna corrente

Nilopolitano em romaria

A fé me guia! A fé me guia!

Em meus devaneios

Entre o real e a imaginação

Saudade persiste,

Insiste em passear no coração

Feito um poema a beira-mar

Canto pra te ver passar

Me vejo em teu caminho

Nessa imensidão azul do teu amor

E às vezes, perdido

Eu me encontro em tuas asas, Beija-Flor

Por mais que existam barreiras

Eu vim pra vencer no teu ninho

É bom lembrar, eu não estou sozinho

Ê laroyê ina Mojubá

Adakê Exu ôôô

Segura o povo que o povo é o dono da rua

Ô corre gira que a rua é do Beija-Flor

SÃO CLEMENTE

SÃO CLEMENTE

Não é fake news: a São Clemente tá com um grande samba-enredo! E que bom! Enfim! Eitcha que demorou, São Clemente. Um samba pra cima, pra frente, alegre, bem escrito. O autor é o genial humorista Marcelo Adnet – um puta acerto da escola. Acredita, São Clemente! Tomara que, de fato, a maré vire! E obrigado por chamar de burro o asno que toma as decisões no mais alto posto de comando do país e obrigado também por este samba descolado, moderno, o mais irreverente do ano. Fazia anos que a São Clemente não me toca e agora me tocou fundo.

Aqui o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=eIabwNo0ysw

Meu povo chegou ôô!

A maré vai virar, laiá!

Na ginga, pra frente, lá vem São Clemente

Sem medo de acreditar!

O sino toca na capela e anuncia

Nossa Senhora começou a confusão!

Quem vai ficar com a imagem de Maria?

O burro vai tomar a decisão

Mas o jogo estava armado

Era o conto do vigário

Nessa terra fértil de enredo

Se aprende desde cedo

Todo papo que se planta dá

Dom João deu uma volta em Napoleão,

Fez da colônia dos malandros capital

Trambique, patrimônio nacional

Tem laranja!

“Na minha mão, uma é três e três é dez!”

É o bilhete premiado vendido na rua

Malandro passando terreno na lua!

Hoje, o vigário de gravata

Abençoa a mamata,

Lobo em pele de cordeiro

“Trago em três dias seu amor”

“La garantia soy yo!”

“Só trabalho com dinheiro”

Chamou o VAR, tá grampeado,

Vazou, deu sururu,

Tem marajá puxando férias em Bangu!

Balança na rede

Abre a janela, aperta o coração

O filtro é fantasia da beleza

Na virtual roleta da desilusão

Brasil, compartilhou, viralizou, nem viu!

E o país inteiro assim sambou

“Caiu na fake news!”

Meu povo chegou ôô!

A maré vai virar, laiá!

Na ginga, pra frente, lá vem São Clemente

Sem medo de acreditar!

ESTÁCIO DE SÁ

ESTÁCIO

A escola do Morro de São Carlos, onde nasceram Gonzaguinha e Luiz Melodia, é a mais antiga do Carnaval do Rio. A primeira escola a entrar na avenida, no domingo do Grupo Especial, vem com o enredo “Pedra”, desenvolvido pela campeoníssima carnavalesca Rosa Magalhães. O samba é bom mas me parece engessado no enredo – sabe quando é difícil identificar algo mais do que apenas o desenvolvimento da sinopse? Boa sorte à Estácio, pela história, pela tradição, pela raiz.

Veja o clipe: https://www.youtube.com/watch?v=g1davdVUA4o

O poder que emana do alto da pedreira

Tem alma justiceira e garra de leão

Senhor não deixa um filho seu sozinho

Tirando pedras do meu caminho

Vai São Carlos

À força dos ancestrais

Pedra fundamental do samba

Batalhas e rituais

Paredes que contam histórias

Na sede pela vitória

Sagrada, talhada, encravada no chão

Conduz meu pavilhão

Ê roda pra lá, Ê roda pra cá

Brilha na estrada seguindo o caminho do mar

Diamantes e amores, sedução e fantasia

A riqueza dos senhores dos escravos alforria

No verso duro a inspiração

Da serra do meu pai e meu avô

O trem que leva a produção

Das minas a tinta do grande escritor

Vem peneirar, peneirar

O garimpo traz o ouro a cobiça dos mortais

Peneirar, peneirar

Devastando a natureza no Pará dos Carajás

Da lua, de Jorge, eu vejo o planeta azul chorar

Atire a pedra quem não tem espelho

Quero meu rubi vermelho

Pra minha Estácio de Sá

A PAUTA IDENTITÁRIA E O FIM DO PACTO DA MEDIOCRIDADE

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“A pé e de coração leve eu sigo pela estrada aberta,

saudável, livre, o mundo à minha frente,

(…) Daqui em diante não peço mais boa sorte, boa sorte

agora sou eu.

Daqui em diante eu não lamento mais, eu não adio mais,

De nada careço;

acabei com as queixas portas adentro, bibliotecas,

críticas rixentas;

forte e contente vou eu pela estrada aberta.

(…) Ó estrada pública, eu respondo que não receio deixar-te,

embora goste de ti,

tu me expressas melhor do que me expresso eu mesmo,

há de ser para mim mais do que meu poema.

(…) Allons!  Não devemos parar aqui,

por mais doces que sejam estas coisas arrumadas,

por mais conveniente que a habitação pareça,

não podemos permanecer aqui;

por mais abrigado que seja o porto e por mais calmas

as águas,

aqui nós não devemos ancorar;

por mais acolhedora que seja a hospitalidade

à nossa volta,

não nos é permitido desfrutá-la

senão por bem pouco tempo.

Ouvi-me!  Serei honesto convosco:

não ofereço os macios prêmios de sempre,

mas ofereço ásperos prêmios novos.”

 

Trechos do “Canto da Estrada Aberta” de Walt Whitman (1819 – 1892)

Por Henri Figueiredo*

Algumas reflexões sobre como parte da Esquerda lida (ou deveria lidar) com o projeto de poder dos evangélicos neopentecostais

Há um erro estratégico e de método político que persiste em vastas parcelas da Esquerda brasileira e mundial. Um erro que precisa ser denunciado e corrigido, dentro e fora das fileiras militantes, antes que nos engesse e nos leve à repetição de erros táticos e eleitorais. Ainda mais neste momento em que é necessária a formação de uma frente democrática contra o avanço do ultraliberalismo com laivos fascistas – ou, como tem sido chamado, do neofascismo à brasileira. O erro é recorrente e carrega a ultrapassada concepção de que os movimentos classistas de cunho econômico e social são necessariamente prevalentes aos movimentos identitários –como as lutas antirracismo, pela igualdade de gênero e da comunidade LGBT. Outro erro, mais recente, é a relativização do conceito da laicidade do Estado, ou seja, da clara separação entre doutrinas de igrejas da organização da Res publica. Certos elaboradores imaginam que tratar do Estado laico (e do que dele provém)  representa, por si, impeditivo para nos (re)inserirmos nos debates políticos com as crescentes populações evangélicas neopentecostais.

Estrategicamente a luta socialista integrou e ajudou a organizar o Estado laico e as pautas libertárias, feminista e da igualdade racial. Chegando nessa quadra histórica, em que os movimentos identitários ganham volume e, muitas vezes, conduzem a maioria nas manifestações antissistêmicas, (o #EleNão foi o exemplo emblemático, na eleição de 2018), o método dos Politburos modernos já não pode ser de apenas “encaixá-los” na pauta econômica.

UMA EXPERIÊNCIA MUITO PARTICULAR 

Não costumo entrar no debate negacionista da importância das organizações religiosas na política – as considero legítimas na política. Eu, por exemplo, fui um menino proletário que, aos 14 anos já estava no chão de fábrica fazendo trabalho de adulto. Tive, durante os estudos para Crisma numa Igreja Católica progressista, a primeira oportunidade de debater e tomar consciência da realidade em que estava imerso. Foi nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB) da Teologia da Libertação. 

“Fé é chamado”, dizia o padre que se tornou mais um amigo do que conselheiro espiritual. Ele exortava o povo a ocupar os espaços da igreja – os únicos lugares na  região que acolhiam sem custo, por exemplo, as festas da juventude proletária e das famílias da comunidade. Eram espaços de encontro, lazer e debate político. E também, é claro, de espiritualidade e da fé – para os que tinham “o chamado” interno.  Se me tornei um militante de Esquerda, antissistêmico, foi devido à acolhida de um padre progressista que abriu espaços de encontro para a juventude proletária. Por isso, eu compreendo o centro do fenômeno das neopentecostais e do seu projeto de poder. Sejamos francos: a capilaridade do grande partido popular que é o PT deve muito à sua inserção nas CEBs e à Teologia da Libertação – hoje, aliás, justamente retirada pelo Papa Francisco da proscrição imposta durante décadas pelo Vaticano. Como se diz há tempos: “se o cachorro entra na igreja é porque ela está aberta”.

O voto da massa popular e trabalhadora no PT, dos primórdios, foi conquistado nesse campo e no campo do sindicalismo combativo e politizante. Se não fossem tais vertentes, o PT seria um partido de quadros intelectuais intramuros universitários – valorosos e centrais na concepção de uma nova Esquerda plural e democrática, mas com base restrita ou quase nula.

Libertários que somos, à Esquerda, defendemos a ampla liberdade de fé e de culto e, igualmente, defendemos a tolerância aos que não têm nenhuma crença religiosa confessional. Ponto. Parágrafo.

DEBATE SIM. MAS NÃO A MIOPIA DE TENTAR CABALAR VOTO CONSERVADOR

De onde vem, então, essa miopia (para não dizer covardia) dos que acreditam que se a Esquerda não se assumir “conservadora nos costumes” não conseguirá mais recuperar as classes B, C e D cooptadas pela onda crescente das igrejas evangélicas neopentecostais? 

Ora, o próprio PT conviveu (e convive) desde sempre com as contradições de parcelas militantes que defendem claramente o aborto legal e seguro, por exemplo, como uma questão de saúde pública e direito das mulheres ao seu corpo, enquanto outras parcelas foram (e são) refratárias com base em sua fé religiosa. 

As tensões internas decorrentes da própria concepção democrática e plural do PT levaram a militância petista a melhor a elaborar suas teses e melhor conduzir suas práticas na sociedade. Neste tema específico, tenho certeza que as feministas ajudaram a problematizar e a situar a questão do aborto para além do dogma religioso; e, por outro lado, os(as) religiosos(as) contribuíram com uma dimensão espiritual e mística que perpassa todas as sociedades do mundo para além do dogma materialista. Eis a beleza da dialética. E a riqueza e a força da pluralidade do PT – um partido sempre em busca de sínteses.

A pauta classista e econômica foi responsável pelas conquistas que os(as) trabalhadores(as) arrancaram a ferro, fogo e sangue do sistema capitalista ao longos dos dois últimos séculos. A pauta identitária é a pauta civilizatória que deve estar no centro do debate e da disputa política contra a barbárie no século XXI. 

Há quem ache ingênuo que possa haver espaço para civilização livre e libertária diante da escravidão de um sistema que mói gente. Mas vale a pena, ou faz sentido, lutar por condição de trabalho, salário e aposentadoria enquanto temos de flexibilizar a luta diante da necropolítica do feminicídio, da homofobia, do racismo e do fundamentalismo religioso? Não bastam os fatos que apontam para o sequestro do aparato do Estado e das instituições por grupos que querem impor à sociedade uma visão de mundo obscura e excludente? 

IDENTITARISMO E REALPOLITIK EM 2019

Escrevo em outubro de 2019. Alguns defendem que o identitarismo e o embate político com certos neopentecostais é falta de proposta política e que o importante é a “vida real”, a realpolitik dos interesses econômicos e financeiros imediatos da população. São, no mais das vezes, os mesmos que não deram (nem vão dar) um pio com a gigantesca fuga de capital do Brasil a partir de 6 de outubro. Em quatro dias, estrangeiros retiraram quase US$ 2 bi do país, “levando a parcial negativa deste ano para R$ 27 bilhões, quase 10% a mais do que os 24,8 bilhões que se evadiram no ano de 2008, com a crise mundial”, segundo informou o jornalista Fernando Brito, no blog Tijolaço. 

A narrativa do establishment geopolítico é que o Brasil afunda na crise financeira devido à guinada ultraconservadora, de desregulação e crime ambiental, de censura às artes, à livre expressão e ao jornalismo independente, de ameaça aos direitos civis e liberdades fundamentais. Tornamo-nos párias no cenário internacional. Narrativas à parte, não estamos vendo o que ocorre debaixo dos nossos narizes com o avanço da agenda ultraconservadora, autocrática e distópica de um governo fascistoide? 

Certeza de que, nessa hora grave, precisamos é nos mostrar palatáveis ao gosto dos fundamentalistas religiosos que têm projeto de poder e ficam melindrados com nossa pauta civilizatória? Ou devemos ir para o embate público com eles? Fico com a última opção. Mas, à diferença deles, eu não quero eliminar o outro, não quero metralhar o diferente, não prego com discurso de ódio. A nossa bandeira é da vida, livre, tolerante, democrática e laica. 

Assim como a agressividade doentia de um psicopata como Olavo de Carvalho é contagiosa no debate público e tendemos, nós que não temos sangue de barata, a responder na mesma moeda, o discurso conservador, falso-moralista, hipócrita e canalha também contagia. 

Como escreveu recentemente a jornalista Cynara Menezes: “A esquerda não pode só pensar em ganhar a eleição. Temos um papel didático com as gerações futuras. Precisamos contribuir para conscientização da população para o que significa ser progressista; antirracista; contra a homofobia; feminista; pró- descriminalização do aborto e pró-descriminalização da maconha. Não podemos abrir mão de debater com a sociedade estes temas. Colocar a população para evoluir, não retroceder junto com ela. Ou agora teremos também que nos curvar à escola sem partido?”.

Seria bom rompermos com o pacto da mediocridade da Realpolitik míope que nivela por baixo projetos de sociedade inconciliáveis em nome de um pragmatismo covarde e inerte. Devemos encarar o trabalho pela mudança na direção dos movimentos que são as vozes e as bandeiras civilizatórias deste século. 

DEMOCRACIA PRESSUPÕE CHOQUE DE IDEIAS E PROJETOS DE PODER

Se as nossas alas cristãs na Esquerda, caudatárias da Teologia da Libertação, entenderam alguma vez o grande quadro da geopolítica e a condição humana, não podem admitir que a Teologia da Prosperidade ou do culto ao Deus Mamon prevaleça. Como conviver com quem prega a misoginia, a homofobia, a satanização do adversário e do diferente? Quanto de ingenuidade é preciso para acreditar que grupos fundamentalistas, algum dia, venham a compartilhar poder sem que o conquistemos pela luta? Como conciliar o necessário combate às práticas antidemocráticas e bárbaras com o respeito ao princípio da liberdade religiosa e de culto?

Nesse caldo, a tradição marxista é importante porque dá a liga entre teoria e práxis nos voluntarismos dispersos. Por isso, atacam o que chamam de “marxismo cultural” e, com isso, vão avançando sobre as universidades, sobre o jornalismo, sobre a livre expressão e sobre as liberdades num movimento anti-intelectual e anticientífico. Che Guevara, cuja execução pelos lacaios bolivianos da CIA completa 52 anos, disse que o conhecimento nos faz responsáveis. E, por isso, abri este breve ensaio com uma citação de Walt Whitman, um dos poetas favoritos de Che, que fala da estrada pública, da estrada aberta e do não conformar-se. 

Nesta semana, em entrevista ao Roda Viva, o ministro do STF Gilmar Mendes, à guisa de justificar sua opinião jurídica que muda com o vento, parafraseou um pensador espanhol que fundou a Escola de Madri. Mendes, porém, sem honestidade intelectual, só soberba, não citou a fonte. O amigo jornalista Adriano Marcello Santos marcou em cima e indicou o autor – José Ortega y Gasset, no livro “Meditações do Quixote”: “Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim”. Salvemo-nos, portanto. 

 

*Henri Figueiredo é jornalista, ativista digital e militante do Partido dos Trabalhadores.

 

 

ATRAVESSANDO A FUMAÇA | Reflexões políticas na madrugada bolsonarista

69394161_2505672279471811_3393107241392406528_nPor Henri Figueiredo*

Quando passar a longa noite bolsonarista repleta de fumaça, ódio e fogo, o povo brasileiro verá a terra arrasada da quebra de direitos como ao da aposentadoria – cujos valores, se não chegavam a ser “justos”, ao menos tiveram aumentos anuais reais nos governos do PT, assim como o salário mínimo teve.

Bolsonaro com suas asneiras, estupidez e incapacidade mental tragicômica é cortina de fumaça perfeita para a pilhagem do Pré-sal pelos EUA; para o desmonte veloz da rede de proteção social afirmada pela Constituição de 88 e pelas políticas públicas criadas de lá pra cá; para a liberação descontrolada do capitalismo mais selvagem e predatório e, agora, sem a proteção de leis e fiscalização trabalhista ou ambiental.

O Brasil é roubado, saqueado, desmontado sob um governo de entreguistas. A prestidigitação dos donos do poder econômico se deu por meio de seus veículos de comunicação de massas – primeiro para convencer os analfabetos políticos a saírem às ruas não apenas contra “o petê” mas contra os seus próprios direitos. Depois, para instrumentalizar, com financiamento empresarial milionário, uma rede de mentiras dirigidas a partir da tecnologia da informação e das redes sociais na Internet.

Nessa conjuntura absolutamente distópica em que vivemos, a Resistência não é apenas por democracia – é também por sanidade física e mental, porque somos inundados de veneno desde a comida até o bombardeio diário do discurso de ódio que nos fazer querer reagir e partir pra guerra civil.

A guerra perfeita para o Império seria a de brasileiros(as) contra seu próprio povo – “matem-se entre vocês”, ri-se Trump emulando como farsa o “Divide et impera” do César romano.

O componente neofascista e, às vezes, abertamente nazista da história me parece que vem justamente das classes médias vinculadas ao patrimonialismo nacional. E de certos setores do Judiciário, em todas as esferas. Minha intuição sempre avisou, por mais subjetivo e arriscado possa isso ser para um jornalista registrar, que nunca foi à toa ou por casualidade que Moro se apresentou nos seus primeiros anos midiáticos de camisa negra – assim como seus colaboradores no serviço judiciário. Ouvi de reconhecido jurista que, nas classes de magistrados e promotores, o Poder Judiciário e o Ministério Público já estão amplamente tomados de fascistas. Vi pessoalmente este fenômeno ser gestado nos anos 90, quando no Movimento Estudantil Universitário. Alguns mestres alimentavam seus pupilos no curso de Direito com obras do integralista Plínio Salgado, por exemplo.

O antropólogo Darcy Ribeiro disse certa vez que “a crise da educação no Brasil não é crise, é projeto”. Também a escalada fascista que tomou de assalto cargos chaves da República é um projeto.

O “LAWFARE” é a guerra em que a lei é usada como arma. Os soldados diletos do lawfare no Brasil são os doutrinados ultraliberais de matriz cristã norte-americana, com cursos nos EUA ou em programas de formação espalhados pela periferia do Império. Especialmente “operadores do Direito”.

Foi o lawfare que deu sustentação ao Golpe de 2016 em Dilma, que perseguiu as principais lideranças de Esquerda e encarcerou Lula para tentar destruir moral e eticamente sua imensa liderança mundial em defesa da classe trabalhadora. Este lawfare vai se transformando em guerra híbrida com o uso da cibernética e da ação de milícias de intimidação física aos divergentes – como nos casos recentes e cada vez mais constantes de ataques a artistas durante espetáculos, volta da censura e da autocensura do jornalismo comercial. A cruel sutileza das patrulhas comportamentais do bolsonarismo é que elas são muitas vezes, sim, “espontâneas”. Noutra época chamaríamos o método de “brainwash”.

Quando passar a cortina de fumaça bolsonarista, para conter a revolta da maioria (que vai acordar da hipnose e do engano jogada de volta à pobreza ou à miséria) será necessária a “pacificação do país” – esse é outro eufemismo clássico da direita mundial para justificar a repressão aberta e o estrangulamento dos direitos e liberdades civis.

Mourão parece ideal para esse papel de “pacificador” repressivo. Toffoli, um traidor talvez mais vil do que Temer, já manifestou publicamente que a própria Constituição deveria ser “desidratada”. Logo ele, presidente do tribunal que, Supremo, deveria ser o guardião da Constituição Democrática.

Outra saída das oligarquias brasileiras, cuja aceitação pelas classes médias vai sendo testada na mídia de massas, é a transição para um regime parlamentarista ou “semi-parlamentarista”, como já li.

Não importa, o plano parece ser transferir o máximo de poder da República para os representantes do Boi (“agro é tudo”, diz o slogan a la “Brasil, ame-o ou deixe-o” dos anos 70); da Bala (porque só com força armada, ao fim e ao cabo, se sustentam golpes contra a vontade popular); e da Bíblia (porque o que seria das almas, se depois da miséria e exploração nesta vida não tivéssemos a garantia da felicidade no Reino dos Céus ou, por outra, se não acreditassem que a prosperidade é a recompensa do Deus Mamom aos fiéis que pagam em dia o dízimo e não contestam “as obras”).

No final, tudo é controle. Ou tentativa.

No meio, a vida corre e, pra ser vívida, precisa ser rebelde.

Diz-se que a ignorância é uma bênção. Pra mim a bênção também é saber junto, questionar junto, investigar junto, andar junto, conhecer e conquistar junto.

Só a vida política me faz aceitar-me como espécie gregária. Não fosse a paixão pela política, seria um eremita – como meu xará Thoreau foi no século XIX, quando escreveu “A Desobediência Civil”. (Ao dizer, antes, “paixão”, de fato ocorreu-me primeiro o sofrimento.)

São reflexões na cortina de fumaça. Etimologicamente, o que pode refletir em meio a essa névoa bolsonarista? Suponho que só o que temos mesmo dentro de nós mesmos e nos mantêm de pé, dia a dia, numa luta que, no fundo, queria ser prazer. Mas fosse só prazer não daria muito sentido à vida. Por isso, tenho lado e tento equilibrar-me no caminho do meio.

*Henri F. é jornalista.
São Leopoldo, 2 de setembro de 2019

UM PANORAMA DO PENSAMENTO CRÍTICO COM AS ESQUERDAS DE VOLTA ÀS RUAS

 

Brasil de Fato

Manifestantes na avenida Presidente Vargas, no Rio, em 15 de maio, no #TsunamiDaEducação #15M / Foto: Pedro Rocha | Brasil de Fato

 

Por Henri Figueiredo | Twitter: @henrifigueiredo

Neste maio de 2019 percebemos não apenas o ressurgimento das manifestações de rua de uma ampla frente de Esquerdas e Centro-Esquerda como, também, de uma produção teórica e analítica afiada. O pensamento crítico resiste, alimenta a rua e dela se alimenta na renovação dos protagonistas, na maneira de (re) organizar os atos públicos de protesto e de como fazer a leitura da conjuntura. Na minha percepção, as melhores análises de conjuntura têm partido de gente da academia: sociólogxs, antropólogxs, historiadores e um(a) ou outro(a) jornalista da contra corrente.

Apresento aqui uma seleção de excertos que compõem um bom panorama dessa produção intelectual entre os dias 11 e 17 de maio de 2019. Ao final, os leitores poderão encontrar os links para a íntegra dos textos e, quando houver, a indicação da conta de Twitter dos autores.

SABRINA FERNANDES¹, SOCIÓLOGA, youtuber do Canal Tese Onze

“Não há prática revolucionária sem teoria revolucionária, como a tradição leninista nos lembra, e essa relação é uma relação dolorosa de reflexão e reorganização contínua. (…) é possível encaminhar a autocrítica como uma norma organizativa e estratégica para esquerda e não como algo derrogatório. A esquerda precisa parar de ter medo de admitir seus erros para que enfim possa celebrar seus acertos de forma mais frequente e reocupar o lugar na história e no campo político que tanto a extrema-direita quanto os liberais do ‘nem esquerda nem direita’ tentam lhe negar”.

 

ELIANE BRUM², JORNALISTA E ESCRITORA, COLUNISTA DO EL PAÍS

Desculpa, mas não há desculpa. Não basta você ficar no sofá tuitando ou feicibucando enquanto os direitos são apagados e o autoritarismo se instala no Brasil. Não dá para terceirizar luta e posição na vida. O problema também é seu. O que está em curso não acaba em quatro anos. O que se destrói hoje levou décadas para ser construído. As consequências são rápidas, algumas imediatas. Destroem primeiro os mais frágeis, depois (quase) todos. E, a não ser que você concorde com o que o presidente contra o Brasil está fazendo em seu nome, é com você ser +um e chamar +um.

(…)

Já escrevi no passado recente que acreditava que as redes sociais eram ruas também. Ruas de bytes era como eu me referia a elas. Percebo que estava equivocada. As redes sociais não são ruas. Para ser rua é preciso corpo. O que se passa nas redes sociais é importante e têm definido nosso cotidiano. O que se passa nas redes sociais têm muitos impactos sobre a vida e sobre a percepção da vida. Já podemos criar uma biblioteca inteira de livros que refletem sobre esse fenômeno. É necessário investigar o que as redes sociais são, em seus múltiplos significados. Tanto quanto saber o que não são. E as redes sociais não são rua.

O que se passa nas redes sociais tem efeitos sobre o corpo de cada um. Mas o corpo de cada um não está lá. Ir para a rua, ocupar as ruas, o imperativo ético deste momento, só é possível com encontro. A rua pressupõe encontro real. Pressupõe se arriscar ao outro. Pressupõe conviver de corpo encarnado. Pressupõe negociação de conflitos para dividir o espaço público. A rua é onde estamos com nossos fluidos, enfiados na nossa própria pele, carregando nossas fragilidades diante do outro sem nenhum botão de curtir ou de raiva para acionar. A rua é onde nos arriscamos a nos refletir no olhar do outro e nos reconhecer num corpo que não é o nosso. Nos reconhecer na humanidade e também na diferença.

(…)

Há várias hipóteses e algumas razões (de não irmos pra rua), uma delas o medo. Da polícia, que em vez de proteger os corpos, destrói os corpos. Outra o medo do contágio, já que o outro foi convertido num inimigo. Mas a melhor hipótese que escutei nestes últimos dias foi proposta pelo jornalista Bruno Torturra, em seu “Boletim do Fim do Mundo”, de 9 de maio. Ele faz uma analogia entre a libido sexual e a libido política. O que faríamos todos, ao despejarmos nossa revolta nas redes sociais, seria uma espécie de masturbação. Não falta material na internet para excitarmos e darmos vazão a essa libido política, como não falta material na internet para darmos vazão à libido sexual 24 horas por dia.

(…) Que o primeiro protesto de rua significativo contra o governo de Bolsonaro tenha partido das universidades, segundo Torturra, é revelador. É no espaço das universidades que os estudantes, e também os professores e funcionários, convivem com seus corpos, entre corpos. Ali há compartilhamento real, há negociação, há debate. Há conversa. E há, principalmente, relação. E, assim, há também movimento. É também por essa razão que Bolsonaro e seu ministro contra a Educação decidiram usar o poder conferido pelo voto para destruir a universidade e, assim, perverter o poder conferido pelo voto ao perverter a própria democracia. Qual é o projeto de educação dessa antipresidência? O mesmo projeto que busca transformar a floresta em pastagem, lavoura de soja transgênica e cratera de mineração. O projeto neoliberal. O um.

É preciso resistir também ao esgotamento da libido política nas redes sociais. Ou, dito de outro modo, é preciso manter seu desejo pulsante para se arriscar ao convívio das ruas. É preciso sair do umbigo de si e alcançar o vasto corpo do outro. É preciso estar junto. Não se dê desculpas. ²

 

ROBERTO DAMATTA³, 82 anos, ANTROPÓLOGO, articulista d’O GLOBO

(…) O coração ideológico da consciência política da minha geração, formada no final dos anos 50, foi o marxismo. Um marxismo lido em traduções de edições russas censuradas. Lembro que essa geração da Guerra Fria — condescendentemente chamada de “geração Coca-Cola” — não falava apenas de “direita” e “esquerda”. Ela ia além, classificando as pessoas como “conscientizadas” e “alienadas”. Os pais eram alienados, as mães — católicas e preocupadas com os pobres — pré-conscientizadas. Fui contaminado por Karl Marx e pelo pouco falado Friedrich Engels quando entrei na faculdade. Quem, aos 20 anos, não tem o direito de se deslumbrar com o Manifesto Comunista e vibrar com o fim da opressão encontrando, de quebra, a chave-mestra da História da Humanidade?

Foi o protomarxismo mais evolucionista do que funcionalista (o Marx do 18 Brumário e o da Questão Judaica) que me levou a perceber o Brasil que gravitava em minha volta. Brasil com o qual, como aprendiz de antropólogo do Museu Nacional, entrei em contato quando vi o seu lado mais fundo e dramático — suas sociedades indígenas que, mesmo com a tal “proteção oficial”, estavam sendo dizimadas enquanto os sertanejos reclamavam de injustiça.

Foi, pois, o altruísmo contido no “comunismo” que me levou a essa identificação com um Brasil a ser transformado. Não abandonei esse comunismo até hoje entrelaçado ao meu amor pelo Brasil.

O que abandonei foi a infantilidade dos radicalismos. Do “esquerdismo” nas suas versões radicais e patologicamente malandras e populistas. Um posicionamento cujo pendor acusatório e condescendente, ressentido e repleto de má-fé (aos nossos, tudo; aos inimigos, o berro, a negação, a mentira e a calúnia!) reproduz o autoritarismo fascistoide do regime militar. A prova do pudim foi (como ocorre em todo lugar) a chegada ao poder, pois nada é mais revelador do que o poder.

(…) O que não pode ocorrer é a tentativa de eliminação suicida da esquerda pela direita. Deveríamos ter aprendido que a democracia tanto como um regime político e, acima de tudo, como um estilo de vida, precisa dos dois lados que nela concordam em discordar. Direitas e esquerdas perfeitas — que deixam saudade! — só ocorrem nas ditaduras que, lamentavelmente, conhecemos bem demais.

 

FERNANDO HORTA4, graduado em História pela UFRGS e com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, onde também faz doutorado. ARTICULISTA DO JORNAL GGN

(…) O custo das reformas que o “mercado” quer é altíssimo. A destruição da previdência social brasileira (vendida enganosamente como apenas uma “reforma”), o aprofundamento da destruição de todas as leis de seguridade do trabalho e a implosão do sistema público de educação e saúde do Brasil são muito “bem-vindos” pelo mercado. Como se sabe, o “mercado” não preza nem respeita ninguém. É o lucro pelo lucro e ponto final. A aposta do setor financeiro nacional e internacional era em Temer. Um político velho e velhaco, corrupto fisiológico, apavorado pela possibilidade de passar seus poucos anos de vida preso, e oriundo de um partido que virtualmente dominava o parlamento brasileiro desde o final do regime militar.

Temer, contudo, não esteve à altura do desafio. O estado de desarranjo político que impeachment deixou, mais a obsessão e necessidade do ex-vice em proteger seus telhados de vidro (Eliseu Padilha, Moreira Franco e etc.) foram alvejados de morte com a prisão de Geddel Vieira. Todo este reboliço enfraqueceu o governo e as “reformas” não vieram. Ainda que Temer conseguiu se segurar no poder com a compra de votos e a aprovação das leis que destruíram a CLT. Mas foi só.

Diante do fracasso deste plano e da ascensão da extrema-direita, a aposta foi renovar a dobradinha que tinha dado certo no final dos anos 20 e dos anos 30, na Europa. Um autoritário insano e ignorante “apoiado” por liberais, a privatizarem tudo o que tinha pela frente. Aos que não sabem, Hitler foi um privatizador contumaz nos seus primeiros anos de governo. Ao contrário do que fazia o resto da Europa, o nazista chegou a privatizar serviços básicos de água e esgoto em algumas cidades alemãs. A aposta da época era que o populismo insano de Hitler se dobraria ao capital e a regra do “lucro pelo lucro” mandou os capitalistas seguirem em frente com o apoio ao nazismo.

(…) Bolsonaro será descartado como fralda plástica de bebê. Pesado de “cocô e xixi”. Sem serventia. Ele e os filhos. O mercado, que é o cérebro por trás de tudo, já viu que o custo-capitão é altíssimo. Cada asneira dele ou dos filhos e o PIB cai. Cada insanidade dita em linguagem de latrina pública pelo “guru” de Richmond e investidores se afastam. Ninguém, de qualquer espectro político, atura um indigente mental no comando de um país. Especialmente um país do tamanho do Brasil.

Ocorre que Bolsonaro ainda é necessário até a aprovação das reformas. É ele que precisa ser queimado na pira da opinião pública para que o “mercado” atinja seus objetivos. E a escolha foi mais que perfeita. Nenhum político com alguma inteligência aceitaria este papel. Bolsonaro nunca mais será eleito para nada, seus filhos serão escorraçados e até o exército já se deu conta que pode ser tragado neste buraco negro de impopularidade.

(…) Assim que aprovar as reformas, Bolsonaro cai. Mourão assume com o lustro dos coturnos e o tilintar dos fuzis. O Brasil será “pacificado” da mesma forma que foi com o Duque de Caxias, no século XIX. Quem não se adaptar morre. Fuzilado, se for preciso.

O mercado ficará feliz. O Capitão, não. É exatamente isto que seus filhos, dois milímetros mais inteligentes que o pai, estão preocupados. Duvido que eles consigam entender o que está acontecendo, mas estão ouvindo o “zumbido do mosquito”. Seria interessante eles lerem a biografia de Mussolini, especialmente a parte final dela. Assim saberiam o que acontece com líderes fascistas quando o capital lhes abandona a retaguarda.

___________________

 

LINKS PARA A ÍNTEGRA DOS TEXTOS

1 – Leia a entrevista da socióloga Sabrina Fernandes em Carta Capital. 11 de maio de 2019

https://www.cartacapital.com.br/?p=71515 | Twitter de Sabrina Fernandes: @safbf

2 – “ EU + UM + UM + UM+ | A responsabilidade de cada um na luta contra a destruição do Brasil”, artigo da jornalista e escritora Eliane Brum no EL PAÍS em 16 de maio de 2019. Twitter de Eliane Brum : @brumelianebrum

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/15/politica/1557921007_146962.html

3 – Artigo Sobre o ‘marxismo cultural’ publicado em 15 de maio n’O Globo.

https://oglobo.globo.com/opiniao/sobre-marxismo-cultural-23665833

4 – “Bolsonaro, o descartável”, artigo do historiador e mestre em Relações Internacionais Fernando Hora.  | Twitter de Horta: @FernandoHortaOf

https://jornalggn.com.br/artigos/bolsonaro-o-descartavel/

Chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

Marielle Grafitti

É hora de comentar os sambas de enredo das escolas do Grupo Especial do Carnaval do Rio em 2019. Até porque estamos a uma semana dos desfiles competitivos na Passarela do Samba Professor Darcy Ribeiro – vulgarmente conhecida como “Marquês de Sapucaí”, nome da rua onde o espetáculo acontece no bairro da Cidade Nova, ao lado do Estácio, na região central do Rio de Janeiro. (Saiba mais no link https://goo.gl/1zyCXR ). Como tenho feito há alguns anos, comento samba a samba equilibrando a minha percepção mais intuitiva de ouvinte e amante do carnaval com algumas informações que podem ajudar aos leitores a se situar melhor em relação à história recente da festa. Não tenho a pretensão e nem a qualificação necessária para formular críticas mais elaboradas sobre composição, arranjo de bateria e nem sobre o enredo propriamente dito – deixo esta tarefa para os amigos e amigas especialistas e profissionais do carnaval. Reforço, portanto, de que se trata apenas de um prazeroso exercício de um ouvinte que é apaixonado pela música e pelo carnaval. Nesta publicação para o Facebook vou compilar alguns breves comentários. A ordem dos desfiles é a seguinte: DOMINGO, 3 de março: 1) Império Serrano 2) Viradouro 3) Acadêmicos do Grande Rio 4) Salgueiro 5) Beija-flor de Nilópolis 6) Imperatriz Leopoldinense e 7) Unidos da Tijuca. SEGUNDA, 4 de março: 1) São Clemente 2) Unidos de Vila Isabel 3) Portela 4) União da Ilha do Governador 5) Paraíso do Tuiuti 6) Estação Primeira de Mangueira e 7) Mocidade Independente de Padre Miguel. Optei aqui por seguir a mesma ordem do disco oficial da Liesa e que é definida pela classificação das escolas no desfile do ano anterior.

BEIJA-FLOR

A campeã de 2018 vem com um bom samba, levada irresistível, e com o sempre competente Neguinho da Beija-Flor noutra excelente interpretação. Ainda que distante da beleza e da força do samba campeão de 2018, vai fazer bonito. Um dos refrões diz: “Abre a senzala! Abre a senzala! Nesse terreiro o samba é a voz que não cala”. E a última estrofe, de linda melodia, emociona. Assista no link: https://goo.gl/4Mr9Nb

Oh Deusa!
Tem festa no meu coração
Desfilo toda gratidão
Razão do meu cantar
A luz do meu viver
O que seria de mim sem você?

Nascido feito rei menino
Em ninho de amor e humildade
Meu Pai direcionou o meu destino
Voar nas asas da felicidade
E arrisquei um voo nesse lindo azul
Um mundo encantado pude recordar
Em fábulas bordei a fantasia
Ê saudade que mareja o meu olhar
Herdeiro dessa terra me tornei
Cantei nossos recantos, tradições
Sou eu aquele festival de prata
Que na pista arrebata tantos corações

Ôôô Axé que no sangue herdei
No meu quilombo, todo negro é rei

Abre a senzala! Abre a senzala!
Nesse terreiro o samba é a voz que não cala

Cresci, ouvindo acordes entre doces melodias
A bela dama retratada em poesia e o canto de cristal
A simplicidade no amor, aquele beijo na flor
Fez mais um sonho real
Pátria amada da ganância
Eu pedi socorro pelos filhos teus
Algoz da intolerância
Mesmo proibido, fui a voz de Deus
Toda essa grandeza, vem da nossa gente
Que esquece a dor e só quer sambar
É por esse amor
E o meu valor me faz brilhar
Comunidade me ensinou
A ser apaixonado como eu sou
Ontem, hoje, sempre Beija-Flor

 

PARAÍSO DO TUIUTI

O Tuiuti vem com uma boa levada e com um segundo refrão que poderia ser premonitório se o relacionarmos a Brumadinho: “Vendeu-se o Brasil num palanque da praça | E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça | Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue | E o homem servil verteu lágrimas de sangue”. Nem de longe, no entanto, se aproxima do emocionante samba de 2018 – que foi potencializado na avenida pela sensibilidade e criatividade do carnavalesco Jack Vasconcelos. Assista no link: https://goo.gl/CWpPFu

O meu bode tem cabelo na venta
O Tuiuti me representa
Meu Paraíso escolheu o Ceará
Vou bodejar lá iá lá iá

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue

Do nada um bode vindo lá do interior
Destino pobre, nordestino sonhador
Vazou da fome, retirante ao Deus dará
Soprou as chamas do dragão do mar

Passava o dia ruminando poesia
Batendo cascos no calor dos mafuás
Bafo de bode perfumando a boemia
Levou no colo Iracema até o cais
Com luxo não! Chão de capim!
Nasceu muderna Fortaleza pro bichim

Pega na viola, diz um verso pra iô iô
O salvador! O salvador! (da pátria)

Ora meu patrão!
Vida de gado desse povo tão marcado
Não precisa de dotô
Quando clareou o resultado
Tava o bode ali sentado
Aclamado o vencedor

Nem berrar, berrou, sequer assumiu
Isso aqui iô iô é um pouquinho de Brasil

 

ACADÊMICOS DO SALGUEIRO

Forte! Forte! Seguindo sua tradição de cânticos afro, o Salgueiro traz um samba arrebatador numa gira pra Xangô. O primeiro refrão é matador: “Mora na pedreira, é a lei na Terra | Vem de Aruanda pra vencer a guerra | Eis o justiceiro da Nação Nagô |Samba corre gira, gira pra Xangô”. E trata da justiça quando canta “Machado desce e o terreiro treme | Ojuobá! Quem não deve não teme”. A invocação “Olori Xangô eieô | Kabesilé, meu padroeiro | Traz a vitória pro meu Salgueiro “ tem poder. Gostei muito. E a bateria Furiosa é espetacular. Axé!

Assista no link: https://goo.gl/V8Eygr

Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

Vai trovejar!
Abram caminhos pro grande Obá
É força, é poder, o Aláàfin de Oyó
Oba Ko so! Ao Rei Maior
É pedra quando a justiça pesa
O Alujá carrega a fúria do tambor
No vento, a sedução (Oyá)
O verdadeiro amor (Oraiêiêô)
E no sacrifício de Obà (Obà Xi Obà)
Lá vem Salgueiro!

Mora na pedreira, é a lei na Terra
Vem de Aruanda pra vencer a guerra
Eis o justiceiro da Nação Nagô
Samba corre gira, gira pra Xangô

Rito sagrado, ariaxé
Na igreja ou no candomblé
A bênção, meu Orixá!
É água pra benzer, fogueira pra queimar
Com seu oxê, chama pra purificar
Bahia, meus olhos ainda estão brilhando
Hoje marejados de saudade
Incorporados de felicidade
Fogo no gongá, salve o meu protetor
Canta pra saudar, Opanixé kaô!
Machado desce e o terreiro treme
Ojuobá! Quem não deve não teme

Olori Xangô eieô
Olori Xangô eieô
Kabesilé, meu padroeiro
Traz a vitória pro meu Salgueiro

 

PORTELA

“Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá” cantando a guerreira Clara, filha de Ogum com Iansã. A minha azul e branco de Oswaldo Cruz e Madureira homenageia a grande cantora portelense Clara Nunes – que era da Umbanda, religião nativa que melhor define o sincretismo religioso brasileiro. Faz uma deferência indireta ao mangueirense Paulo César Pinheiro (viúvo de Clara e um dos maiores compositores da música brasileira, autor de “Portela na Avenida” e “Canto das Três Raças”)> “Nos versos de um cantador | O canto das raças a me chamar”. O sincretismo da Portela revela-se, por exemplo, quando canta a “padroeira” (Nossa Senhora Aparecida) e “a avenida em procissão”. Noutro momento, o samba faz referências diretas ao grande Paulo da Portela, ao compositor Natal da Portela, e ao gênio do samba Candeia. É, como a própria letra diz, um samba “saudosista”. Bonita melodia! Faz jus à tradição de respeito que a Portela tem com sua própria história. Eparrei Oyá (Iansã)! P.S.: Também tem uma referência indireta a Paulinho da Viola quando canta: “Mais uma vez deixei levar meu coração”. Assista no link: https://goo.gl/2m23zM

Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe

Axé, sou eu
Mestiça, morena de Angola, sou eu
No palco, no meio da rua, sou eu
Mineira, faceira, sereia a cantar, deixa serenar
Que o mar de Oswaldo Cruz a Madureira
Mareia, a brasilidade do meu lugar
Nos versos de um cantador
O canto das raças a me chamar
De pé descalço no templo do samba estou
É rosa, é renda, pra Águia se enfeitar
Folia, furdunço, ijexá
Na festa de Ogum Beira-mar
É ponto firmado pros meus orixás

Eparrei Oyá, Eparrei
Sopra o vento, me faz sonhar
Deixa o povo se emocionar
Sua filha voltou, minha mãe

Pra ver a Portela tão querida
E ficar feliz da vida
Quando a Velha Guarda passar
A negritude aguerrida em procissão
Mais uma vez deixei levar meu coração
A Paulo, meu professor
Natal, nosso guardião
Candeia que ilumina o meu caminhar
Voltei à Avenida saudosista
Pro Azul e Branco modernista eternizar
Voltei, fiz um pedido à Padroeira
Nas cinzas desta quarta-feira, comemorar

Nossas estrelas no céu estão em festa
Lá vem Portela com as bênçãos de Oxalá
No canto de um sabiá
Sambando até de manhã
Sou Clara Guerreira, a filha de Ogum com Iansã

 

MANGUEIRA

E chegamos ao mais lindo samba-enredo do Carnaval de 2019. Obra-prima. Além de citar, com grandeza, Leci Brandão e Jamelão e mostrar que sabe bem do seu tamanho e significado no Brasil (“São verde-rosa as multidões”), a Mangueira traz um samba que é a um só tempo afetivo (Meu dengo, a Mangueira chegou) e contundente na denúncia da injustiça social brasileira. É de Esquerda e mais: humanista, antirracista, feminista. Por dois momentos é claríssima a referência à resistência contra a ditadura civil-militar: 1) “Mangueira, tira a poeira dos porões” e 2) “Salve os Caboclos de Julho | Quem foi de aço nos anos de chumbo”. Pelo que vi dos ensaios técnicos, deve ter paradona da bateria para a Mangueira e as arquibancadas cantarem, a capella: “Brasil, chegou a vez | De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”. Poeticamente, o samba da Mangueira é um dos mais bonitos da história dos samba de enredo. A estrutura poética desse samba é inigualável. É um clássico que me emociona tanto quanto “Kizomba, a festa da raça” da Vila, em 1988. Assista no link: https://goo.gl/e4m6kZ

Saiba mais sobre o samba aqui: https://goo.gl/95PbS7

Mangueira, tira a poeira dos porões

Ô, abre alas pros teus heróis de barracões

Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões

São verde e rosa as multidões

Brasil, meu nego

Deixa eu te contar

A história que a história não conta

O avesso do mesmo lugar

Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo

A Mangueira chegou

Com versos que o livro apagou

Desde 1500

Tem mais invasão do que descobrimento

Tem sangue retinto pisado

Atrás do herói emoldurado

Mulheres, tamoios, mulatos

Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara

E a tua cara é de Cariri

Não veio do céu

Nem das mãos de Isabel

A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os Caboclos de Julho

Quem foi de aço nos anos de chumbo

Brasil, chegou a vez

De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês

 

MOCIDADE INDEPENDENTE DE PADRE MIGUEL

Bonito samba e que interpretação do Wander Pires! Fiquei com aquela sensação de que a performance do cantor é metade da beleza desse samba-enredo. E a belíssima abertura de Elza Soares já nos coloca numa situação de atenção reverencial ao que virá. A bateria me autoriza a dizer, numa palavra: sonzera. Tá na minha playlist. Aliás, a Mocidade vem com sambas-enredo muito bons nos últimos anos. Assista no link: https://goo.gl/mByZiY

“Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa

Mas nunca é tarde pra sonhar

Vamos lá

A hora é essa!”

Senhor da razão, a luz que me guia
Nos trilhos da vida escolhi amar
Estrela maior, paixão que inebria
Eu conto o tempo pra te ver passar

Olha lá, menino tempo
Tenho tanto pra contar
Era eu, guri pequeno
Pés descalços, meu lugar
Quando um toco de verso (ôôô)
Semeou a poesia (ê láiá)

Eu colhi a flor da idade
Vi na minha Mocidade
O raiar de um novo dia

Baila no vento, deixa o tempo marcar
Nas viradas dessa vida
Vou seguir meu caminhar
Ah! Quem me dera o ponteiro voltar
E reencontrar o mestre na avenida

Desmedido coração
No contratempo dessa ilusão
Ora machuca, ora cura dor
Do meu destino, compositor
Tempo que faz a vida virar saudade
Guarda minha identidade
Independente relicário da memória
Padre Miguel, o teu guri já não caminha tão depressa
Mas nunca é tarde pra sonhar
Vamos lá, a hora é essa!

 

UNIDOS DA TIJUCA

Tenho uma relação afetiva com a comunidade do Borel – morei mais de três na Conde de Bonfim próximo ao morro. A Tijuca traz uma belíssima melodia. E como é uma escola de samba exxxperta, alinha com os católicos nesta guerra santa que virou o Carnaval do Rio de Janeiro sob o comando da Prefeitura nas mãos de um “bispo” evangélico neopentecostal que persegue a cultura afro. Tem um refrão que me lembra muito o lindo samba da Beija-flor em 2018 mas no refrão seguinte a Tijuca lacra: “Só existe um caminho… (por favor!) | Cada um faz seu destino (meu senhor!) | As migalhas do poder que o diabo amassou | Estão dentro de você”. Eu gostei muito. Assista ao vídeo do Pavão no link: https://goo.gl/KMLdg4

Hoje a Tijuca pede em oração
Veste a fantasia pra fazer o bem
Multiplica o sagrado pão
Amém (amém)

Meu filho
Como é lindo o amanhecer
Reflete o sol, a criação
Um bom dia a renascer
Pelos olhos do Pavão
Sou a fé na vida
Esperança da massa
Aquele que na dor te abraça
Sou eu, a verdade pra quem pede luz
Carregando a sua cruz
O alimento em comunhão
Princípio da salvação

Ouço chamar Meu nome
Ouço um clamor de prece
Choro ao te ver com fome
Sou o cordeiro que a alma fortalece

Só existe um caminho (por favor)
Cada um faz seu destino (meu senhor)
As migalhas do poder que o diabo amassou
Estão dentro de você
As mãos unidas vem pedindo o perdão
Gente sofrida com a paz no coração

Dividem o pouco que tem pra comer

Ó meu pai o seu amor é a receita
Iluminai, que não me falte o pão na mesa
Derrame igualdade, prosperidade
As bênçãos do céu
Se Deus é por nós, escute a voz
Que vem do meu Borel

 

IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE

A Imperatriz apela para o refrão de uma marchinha de Carnaval clássica e traz um samba divertido e crítico – bem ao estilo, de novo, das marchinhas que são crônicas sociais. Aliás, acho que é o samba mais cinicamente divertido desse Carnaval. Sacaneia a política, o capitalismo e o jogo de interesses mas também se auto-sacaneia desde a primeira estrofe – e, consigo, todo o mundo do carnaval carioca. Apesar de dizer que tem “pixulé” também zoa o “pato mergulhado no dinheiro”. Não tenho como não aplaudir passagens como essa, por exemplo: “Troca-troca ê na beira da praia | Um espelho por cocar, o negócio é um pecado | Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado | Tempos modernos, onde vidas valem menos | Boas ações não representam dividendos” || Salve, Imperatriz! Assista no link: https://goo.gl/hJQdgH

Me dá, me dá, me dá, me dá um dinheiro aí
Gostei da comissão, me dá meu faz-me rir
Pra investir no sonho e vestir a fantasia
Quero renda na baiana, nota10 na bateria

A tentação seduziu a poesia
Da volta todo dia é a oferta e a demanda
Pecado capital da humanidade
Senhor da desigualdade
Sempre diz quem é que manda
O arqueiro ergueu, aquela gente oprimida e sem paz
Perdeu meu bem, pobre fortuna, nobres ideais
Midas com o seu dedo de ouro
Condenou a própria filha a viver numa prisão
Prata, pixulé, papel moeda e o homem escorrega
Mete o pé na ambição

Troca-troca ê na beira da praia
Troca-troca ê na beira da praia
Um espelho por cocar, o negócio é um pecado
Ouro no mercado negro, negro é ouro no mercado

Tempos modernos, onde vidas valem menos
Boas ações não representam dividendos
A roda gira pro mais forte, poucos tem a sorte
De virar o jogo que o destino fez
Tem pato mergulhado no dinheiro
E o povo brasileiro nada por migalhas outra vez
Se é pra poupar
O porquinho pode até ser virtual
Hashtag no infinito, com cascalho
Eu to bonito no espaço sideral
Imperatriz, sentimento não tem preço, tem valor
Eu não vendo e não empresto
O meu eterno amor

 

UNIDOS DE VILA ISABEL

Poxa, Vila… que samba ruim. A Vila Isabel, escola de Noel, em 1988 apresentou aquele que é, na minha irrelevante opinião, o maior samba-enredo de todos os tempos: “Kizomba – A Festa da Raça”, do grande e saudoso Luiz Carlos da Vila. Neste ano, o samba merece o troféu “Pai João 2019”, ou “Pai Tomás” – o que vocês preferirem. Confundiram tradição com rendição. “Viva a princesa” e “meu sangue azul” é o cacete, Vila. E você que chegou até aqui achando que só iria ler elogios e comentários laudatórios, né? Então segura que vem mais crítica. Assista aqui: https://goo.gl/8ZJsfL

Viva a princesa!
E o tambor que se não cala
É o canto do povo mais fiel
Ecoa meu samba no alto da serra
Na passarela com os herdeiros de Isabel

Vila
Te empresto meu nome
Fonte de tanta nobreza
Por Deus e todos os santos
Honre a tua grandeza
E subindo pertinho do céu
A névoa formava um véu
Lembrei de meu pai, minha fortaleza
Esculpida em pedras
Pedros e coroados
Com os seus guardiões
Protetores de raro esplendor
Luar do imperador

Meu olhar lacrimejou
Em águas tão cristalinas
Uma cidade divina
Bordada em nobre metal
A joia imperial

Petrópolis nasce com ar de Versalhes
Adorna a imensidão
A luz assentou o dormente
Fez incandescente a imigração
No Baile de Cristal o tom foi redentor
Em noite imortal
Floresceu um novo dia
Liberdade enfim raiou
Não vi a sorte voar ao sabor do cassino
“Segundo o dom” que teceu o destino
Meu sangue azul no branco desse pavilhão
O morro desce em prova de amor
Encontro da gratidão

 

UNIÃO DA ILHA DO GOVERNADOR

O Ceará tá com tudo este ano com Tuiuti e União da Ilha cantando o estado. Mas, “vixi Maria”, União da Ilha, que samba mais engessado no enredo, né? Parece que seguiu o briefing da diretoria. E só. Pena. Assista aqui: https://goo.gl/cpJUog

Vixi Maria! A ilha a cantar
Traçando em meus versos a minha alegria
Menina rendeira me ensina a bordar
No céu emoção, no chão simpatia

O Sol
Onde aquece a inspiração é luz
Meu sonho
É vida, vento, brisa à beira mar
Ouvindo poesias de Raquel
Suspiro nas histórias de Alencar
E hoje desfolhando meu cordel
Das lendas que ouvi no Ceará
É doce, é fogo, sabor e prazer
Aroma no ar, plantar e colher
Eu moldei no barro
As recordações que vivi com você

Violeiro toca moda à luz do luar
Sanfoneiro puxa o fole e
Convida a dançar
Vou pedir a Padim Ciço
Abençoe nosso povo
Essa fé a nos guiar

Chão rachado, meu sertão
Peço a Deus pra alumiar
Terra seca que não seca a esperança
Arretada vocação de te amar
O sal da terra segue o meu destino
Sangue nordestino sempre a me orgulhar
A natureza cantada em meus versos
Traduz a beleza desse meu lugar
Linda morena vestiu-se de amor
Teceu a vida com fios dourados
Eu de chapéu de couro e gibão
Enfeitei o meu coração
E a moda desfilou ao seu lado

 

SÃO CLEMENTE

São Clemente, sua louca! Adorei a crítica mas, fala sério, você mesmo é uma das responsáveis por este estado de coisas, não é mesmo, nega? Pra algum desavisado, parece que a São Clemente é um baluarte da tradição do melhor samba do Rio. Será mesmo? Eu gostei do samba, mas pra mim soa muito estranho saber que é a São Clemente que está criticando um estado de coisas no mundo do samba e do carnaval com o qual (quase) sempre compactuou. Assista aqui: https://goo.gl/JQCgmZ

“Que saudade da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas

Onde todos curtiam

O verdadeiro samba”

Vejam só
O jeito que o samba ficou (e sambou)
Nosso povão ficou fora da jogada
Nem lugar na arquibancada
Ele tem mais pra ficar
Abram espaço nesta pista
E por favor não insistam
Em saber quem vem aí
O mestre-sala foi parar em outra escola
Carregado por cartolas
Do poder de quem dá mais
E o puxador vendeu seu passe novamente
Quem diria, minha gente
Vejam o que o dinheiro faz

É fantástico
Virou Hollywood isso aqui (isso aqui)
Luzes, câmeras e som
Mil artistas na Sapucaí

Mas o show tem que continuar
E muita gente ainda pode faturar
“Rambo-sitores”, mente artificial
Hoje o samba é dirigido com sabor comercial
Carnavalescos e destaques vaidosos
Dirigentes poderosos criam tanta confusão

E o samba vai perdendo a tradição (bis)

Que saudade
Da Praça Onze e dos grandes carnavais

Antigo reduto de bambas (bis)
Onde todos curtiram o verdadeiro samba

 

ACADÊMICOS DO GRANDE RIO

O segundo melhor samba do ano, depois do da Mangueira. Aplaudo de pé este samba sensacional da Grande Rio, nos seus 30 anos! Parabéns aos compositores e à bateria Invocada! Carrega uma melodia tocante e é um samba que atinge a pleura, uma pancada, um sacode na alma: “Atire a primeira pedra aquele que não erra | Quem nunca se arrependeu do que fez? | Na vida, todo mundo escorrega | Melhor se machucar só uma vez”. Obrigado, Grande Rio por um dos samba mais contemporâneos dos últimos tempos. E é sempre bom lembrar: “Quem nunca sorriu da desgraça alheia? | Quem nunca chorou de barriga cheia?”. Uma beleza de samba-enredo! E eu registrei: “ E a cisma de atender o celular | Pra curtir, compartilhar | Zombar do perigo largar o amigo | Perder o pudor”. E como não compreender e simpatizar com os versos: “Quem aí tá podendo julgar? | Não consegue ouvir outra voz | Cada um foi pensando em si | Olha o que fizemos de nós | Então, pegue seu filho nas mãos | Educar é um desafio | Se errei, peço perdão | Renasce a Grande Rio”. Tá perdoada, Grande Rio! Vai e arrasa! Assista no link: https://goo.gl/v2vUTn

Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

(Cardume de garrafas pelo mar)
Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio

Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz

Tá errado, não importa quem errou
O pecado e o pecador sempre estão do mesmo lado
Tá errado, sem lição, nem professor
O espinho fere a flor, o amor é maculado
No jeitinho que impera nessas bandas
É mais fácil o mau caminho pra jogar no tabuleiro
Na verdade do espelho, quando a razão desanda
Vai seguindo em desalinho, mesmo com sinal vermelho

Atire a primeira pedra aquele que não erra
Quem nunca se arrependeu do que fez?
Na vida, todo mundo escorrega
Melhor se machucar só uma vez

Cardume de garrafas pelo mar
Nem tarrafa nem puçá alimentam o pescador
E a cisma de atender o celular
Pra curtir, compartilhar
Zombar do perigo largar o amigo
Perder o pudor
Quem aí tá podendo julgar?
Não consegue ouvir outra voz
Cada um foi pensando em si
Olha o que fizemos de nós
Então, pegue seu filho nas mãos
Educar é um desafio
Se errei, peço perdão
Renasce a Grande Rio
Quem nunca sorriu da desgraça alheia?
Quem nunca chorou de barriga cheia?
Eu sou Caxias de tantos carnavais
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz
Falam de mim, eu falo de paz

 

IMPÉRIO SERRANO

Como amante do samba, e portelense. tenho um imenso carinho pelo Império Serrano. Por isso, vou também respeitar a opção da escola em levar para a avenida o samba clássico “O que é o que é”, do grande Gonzaguinha, lançado em 1982. O samba foi anunciado em abril de 2018 e certamente já larga como o mais conhecido de todo o Grupo Especial. Eu gosto muito Gonzaguinha e este samba, é claro, marca a vida de muita gente Brasil a fora. Vai fundo, Império. Principalmente pelo que significa hoje e sempre cantar: “Eu só sei que confio na moça | E na moça eu ponho a força da fé | Somos nós que fazemos a vida | Como der, ou puder, ou quiser”. Sucesso!

Assista aqui: https://goo.gl/AUM6xN

Viver e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Êh! Ôh!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é? Meu irmão

Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo

Há quem fale que é um divino mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

 

UNIDOS DO VIRADOURO

Foi o primeiro samba-enredo que eu ouvi do Grupo Especial de 2019. E recebi como uma mensagem pessoal. “Quem me viu chorar, vai me ver sorrir | Pode acreditar, o amor está aqui”. Bonito samba, Viradouro! Justo com o enredo, mas não engessado nele. Vira Viradouro!

Assista no link: https://goo.gl/z12UqR

Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou

Se tem magia, encanto no ar
Eu vou viajar ouvindo histórias
De um livro secreto, mistérios sem fim
Vovó desperta a infância em mim
Em cada verso sou mais um menino
Que muda a sorte e sela o destino
Lançado o feitiço pra vida virar
Pro bem ou pro mal é carnaval
E na fantasia a minha alegria é um sonho real

No reino da ilusão o amor seduz o vilão
Num conto de fadas, a felicidade
Invade o meu coração pra cantar
Deixando a tristeza do lado de lá

E quem ousou desafiar a ira divina
Vagou no mar
Cego pela sede da ambição
Carregando a sina dessa maldição
Seres da sombria madrugada
O medo caminhou na escuridão
Mas a coragem que me faz lutar
É a esperança, razão de sonhar
Imaginar e renascer no sol de cada amanhecer
Das cinzas voltar
Nas cinzas vencer

Quem me viu chorar, vai me ver sorrir
Pode acreditar, o amor está aqui
Viraviradouro iluminou
O brilho no olhar voltou

Para conhecer os autores dos sambas acesse: http://liesa.globo.com/2019/por/03-carnaval/sambasenredo/sambasenredo.html

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