WILD WILD COUNTRY – Um debate entre amig@s sobre o documentário da Netflix sobre Rajneesh (depois conhecido como OSHO), a comuna de Rajneeshpuram no Oregon (Estados Unidos). Sensacionalismo policialesco? Recorte documental de alta qualidade? Ou ambos?

Anúncios

WILD WILD COUNTRY – Um debate entre amig@s sobre o documentário da Netflix sobre Rajneesh (depois conhecido como OSHO), a comuna de Rajneeshpuram no Oregon (Estados Unidos). Sensacionalismo policialesco? Recorte documental de alta qualidade? Ou ambos?

Osho e Sheela

Osho e Sheela em Rajneeshpuram, na primeira metade da década de 1980.

Wild Wild Country é um documentário em seis capítulos da Netflix sobre o controverso guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh (Osho), sua antiga assistente pessoal Ma Anand Sheela e seus seguidores mais próximos na comunidade de Rajneeshpuram, criada na primeira metade da década de 1980 ao lado da pequena cidade de Antelope no Condado de Wasco, Oregon, Estados Unidos. Foi lançado em 16 de março de 2018 após estrear no Sundance Film Festival. Dirigido por Maclain Way e Chapman Way e produzido por Juliana Lembi, “Wild Wild Country” suscita debates intensos nas redes sociais e, no entanto, quase a totalidade das reportagens da mídia tradicional se atêm apenas no recorte documental escolhido pelos diretores e numa espécie de sensacionalismo judaico-cristão que define os sannyasins (discípulos de Osho) como fanáticos seguidores de uma “seita”.

Tem sido muito difícil encontrar nas mídias digitais as opiniões, as vozes, as interpretações de quem foi ou de quem é sannyasin. Ainda que o documentário tenha como protagonistas alguns deles (que deixaram a comunidade ou que ainda mantêm o sannyas), não se vê nas reportagens recentes as opiniões de seguidores de Osho. Por isso, decidi compartilhar uma conversa que tive no meu perfil pessoal de Facebook, neste maio de 2018, com amigos e amigas que são ou foram da comunidade.

Eu postei em 17 de maio de 2018 às 2h41:

“Terminei nesta madrugada os 6 longos episódios (mais de 1h10min cada um) da série documental da Netflix ‘Wild Wild Country’ sobre o experimento da comunidade sannyasin no estado do Oregon, na primeira metade dos anos 1980. Fiz, dias atrás, um post muito emocionalmente mobilizado depois de assistir pouco mais de 2 horas (um capítulo e meio). Ainda quero muito ouvir amigas e amigos queridos que integram ou já integraram a comunidade, mas a minha primeira (e ainda precária) conclusão é de que não tem cabimento invalidar essa fantástica série documental sem ter visto até o último minuto do último episódio.Espero pela finalização do livro do homem que foi o advogado pessoal de Bhagwan Shree Rajneesh e o último prefeito da cidade criada no Oregon. Considero desde já (ignorante que era e que sou) Ma Anand Sheela uma das figuras femininas mais notáveis do século XX – num patamar talvez superior ao de Lou Salomé em sua amizade e colaboração com Nietzsche, Freud e Rilke. Com humildade, e como homem que estudou e foi forjado profissionalmente na indústria cultural da televisão, me reconheço tocado e influenciado pela narrativa audiovisual. Mas também tocado pela grande dimensão humana das pessoas que protagonizam esse documentário. Portanto, gente, acho que Wild Wild Country cumpre e cumprirá um papel importante na difusão, mesmo que pelo viés mais polêmico e escandaloso, dos ensinamentos de Osho. E aqui fica um aceno e um convite para falar presencialmente disso a amigos e amigas (Sérgio Katia) que têm neste momento um sentimento ou uma abordagem mais crítica em relação a esse produto de mídia. Nada que leio na mídia digital, por mais elaborado que seja o texto, se aproxima da experiência dos meus amigos e da minha própria experiência de vida com os ensinamentos e as técnicas difundidas por Osho e os sannyasins.”

[Aqui o link]

Depois de alguns breves comentários de queridos amigos simpáticos ao meu post, começa o debate:

INÊS BERTI: “Bom isso Henri Figueiredo. Osho foi um mestre que mexeu exatamente nesta ferida judaico-cristã que temos, que diz que um mestre tem que andar de pés descalços e etc e tal. Ele foi controverso sim, e nunca escondeu seu lado humano com todas as fraquezas que isto acarreta. Gostei dos episódios, mas acho que foi apenas a parte folhetim americano que apareceu, nada sobre o imenso legado sobre auto transformação, terapias e meditação que ele proporcionou e que ainda são tabus hoje em dia. Conheci uma pessoa que foi ao Oregon e a visão dela era muito maior que isto. Basta ver o depoimento do Niren (advogado), pra ver como era e é a vida de muita gente antes e depois de conhecer-se melhor através de tudo o que Osho trouxe. Eu e Eduardo Krug estivemos em Poona em 1998 de foi algo muito transformador em todos os sentidos na nossa vida. Eu tb tive um impacto muito negativo quando cheguei lá, mas fui literalmente dobrada ao avesso pra poder me entregar a mim mesma e quebrar este conceitos tão arraigados que temos aqui no ocidente. Todas as terapias que fiz a partir disso foram legados maravilhosos trazidos por ele. Lá em 98 o centro de Poona já tinhas terapias de ponta que agora estão chegando aqui. Osho dizia que a nossa mente ocidental judaica-cristã é muito dura e fechada, assim como nosso corpo, preconceitos, etc. e que é necessário mexer profundamente nisso para que cheguemos à meditação. E tudo que o mundo capitalista proporciona pode ser usado para beneficiar as pessoas de um jeito muito maior que apenas o consumismo material. Lá em Poona, por exemplo, eles recuperaram um lixão imenso e fizeram um super parque que agora tem águas limpas, vegetação recuperada, animais, e é usado pelos visitantes do asharam e aberto a toda a população. Um trabalho lindo de ver e assim muitas outras coisas. Tenho a dizer que fui muito crítica tb em relação a tudo isto, mas tenho que admitir que foram as melhores coisas que me aconteceram na vida e se me sinto uma pessoa melhor e mais conectada devo a esta maravilhosa senda.”

SÉRGIO VELEDA, ao seu melhor estilo, põe lenha na fogueira e sobem as labaredas:

“Sheela era uma psicopata, fria, não gostava de meditar. Mas como os psicopatas, era ousada, empreendedora, vivamente ativa, rebelde. Foi ela com sua determinação quem criou a comuna no Oregon (EUA) e levou Rajneesh para lá. Eles foram além da conta pois uma sensação de que “somos os melhores”, uma clara atitude narcisista coletiva, afrontou uma comunidade careta, pacata, limitada, em um confronto exagerado e desnecessário. Poderia ser de outro modo mas foi excessivamente confrontadora com aquela gente naquele fim de mundo. O projeto de ajuda ao mendigos de rua não foi nem de perto um gesto caridoso, mas intencional, maquiavélico, com um interesse político. Em poucas palavras eu acho que os sannyasins sempre se acharam especiais, do tipo “somos os melhores”. De fato parte disso era verdade, mas não completamente. Os sannyasins alemães que coordenavam o ashram na Índia, no começo, eram muito meticulosos e faziam tudo com grande qualidade. Sheela era exigente e queria o melhor para Rajneesh. Tudo era feito com esmero, qualidade, precisão. Nem mesmo a comunidade de Esalén na Califórnia, que também representou um renascimento cultural, humano e terapêutico chegou a dimensão do trabalho dos sannyasins. Até hj ninguém fez nada parecido. Não estou nem falando no trabalho de vanguarda de Osho, que foi um dos poucos guias que conseguiu fazer uma das melhores síntese entre Oriente e Ocidente, de Freud, Jung, Reich à Buda, Ramana, Lao Tzu… No Brasil eu participei ativamente do movimento nos anos 80. Tomei o discipulado, pratiquei muita meditação ativa, muitos grupos, fortes, de confrontos, que unia Gestalt, Psicodrama, Reich; corpo, sexualidade, meditação, silêncio. Rajneesh era um pai permissivo. Rajneesh falava de um lugar muito alto. Não é possível compará-lo facilmente com algum outro, pois era de uma inteligência rara e uma visão amplificada. Daí que os discípulos no nível inferior de consciência que viviam acabavam por tomar ao seu modo o que dele ouviam. Ficaram conhecidos por uma rebeldia única. Mas tinha muito psicopata no meio. Muito mesmo. Vi, vivi, ouvi, coisas do absurdo e do inimaginável. Mas não eram falsos. E o dizer e fazer a verdade também se tornava agressivo, insensível, psicopático também. Perdão pelo comentário longo Henri Figueiredo. Por fim, acho que merecia esse documentário ser visto de outro ângulo; desde a contribuição dada por Rajneesh ao mundo. Ele ficou tão famoso que virou confusamente literatura de auto-ajuda. Moda mercantil da espiritualidade New Age. Mas o documentário ao nível do Netflix cai no sensacionalismo policialesco. O documentário só é interessante para se saber que existia ao final, e todo mundo sente ao vê-lo, algo maior que não foi contado em termos da contribuição de Osho. Agora falo Osho pois me relacionei com o Rajneesh muitos anos. Faltou algo importante!!!! Que os EUA envenenaram Osho, como no passado já tinham matado Wilhelm Reich na prisão.”

EVÂNIA REICHERT pondera e aponta o que, talvez, seja a grande falha da série documental da Netflix:

“Eu gostei muito de ver. Assistimos tudo, uma parte atrás da outra. Estava certa que em algum momento também seria abordado o inovador trabalho que Osho aportou ao mundo terapêutico, além dos caminhos espirituais propostos por ele. Quando terminou a última parte, senti uma indignação, pois o filme mostrou apenas uma parte da história. Nada, absolutamente nada, foi dito do grande trabalho, muito bem descrito por Sérgio, acima, que nasceu desta incubadora criativa. Se 20% do documentário remetesse a este ponto, seria quase uma obra prima documental. Mas… faltou uma parte importante, essencial, ao meu ver. Para os quem nada sabem do tema, ver esse documentário constrói uma ideia muito equivocada do assunto. Pessoalmente, nunca me envolvi com Osho diretamente, pois na época estava na luta política e cultural. Eu tinha total identidade com Reich, que unia o caminho do autoconhecimento com a sociologia. Reich era um homem de esquerda e libertário em todos os sentidos, pessoais e sociais. Eu não tinha qualquer alinhamento ideológico com os sannyasins, mas compartilhava os mesmos anseios de liberdade criativa, o confronto à caretice pseudo-moralista da época e os inovadores trabalhos psico-corporais. Eu não gostava de muita coisa que via em alguns grupos, em raros momentos de convívio, tais como condutas antiéticas, veneração compulsiva por mestres, mas especialmente não aceitava verdadeiros abusos de toda ordem em nome da “liberdade”. Mas… friso, já na época, eu sabia que nada disso tinha a ver com Osho, mas com as pessoas e seus equívocos e suas projeções e distorções. Mesmo não me enturmando com os grupos que cruzei – talvez pudesse ter sido diferente se cruzasse por outros grupos, em outro lugar – sempre achei genial e ainda hoje muito aprecio o que nasceu deste movimento em termos de recursos terapêuticos, música e arte. Todas as coisas de Osho são bem feitas, revelando genialidade, inteligência, muita criatividade, grande talento, inovação. É uma maravilha o que esse grupo de seguidores de Osho produziu em termos de música, arte e terapias inovadoras. É realmente impressionante. É genial. O fato de nada disso ter sido sequer citado no documentário é um erro grave. Teria sido genial, histórico, de grande contribuição. Faltou pouco, mas esse pouco é o grande feito de Osho.”

INÊS BERTI:

“Também achei isto. Fiquei esperando q documentassem tb a parte mais fundamental do legado dele mas… como digo foi apenas um folhetim policialesco bem a gosto norte-americano.”

KATIA MARKO:

“Concordo com o Sérgio e a Evania em suas análises. Eu não vivi esta época. Fui ler o primeiro livro do Osho em 1991 e me apaixonei. Sou sannyasin desde 2003, a partir da minha experiência terapêutica no Namastê. Vivo há 10 anos com minhas filhas e mais 80 amigos na Comunidade Osho Rachana. E essa é a minha experiência e ligação com o Osho, que sim foi um rebelde que não carregava bandeiras. Ele construía e desconstruía. Era controverso, provocador e colocava o dedo na ferida. Não se identificava a nenhum ‘ismo’. Acreditava profundamente no ser humano e no seu desenvolvimento através do amor! Espero que esse debate sirva para resgatamos o seu verdadeiro legado ao mundo, assim como o de Reich, tão necessários para esse estado de coisas que estamos vivendo no mundo.”

RAMONA BARCELLOS:

“Queridos, obrigada! Estou adorando acompanhar os relatos e pontos de vista de vocês! A questão documental é a que mais refleti no decorrer dos episódios. Eu conhecia pouco da história toda. Então de certa forma com a minha ignorância seria mais fácil cair em certas armadilhas. Por isso permaneci muito atenta aos detalhes e truques de audiovisual (que acabei aprendendo quando trabalhei com audiovisual nessa minha vida profissional nômade) usados pra emocionar, tendenciar e levar o espectador. E de cara isso me incomodou muitoooo pois passei a assistir desconfiada, fica escrachado que estavam “limpando” a imagem de Sheela. Não sei quem exatamente encomendou esse documentário, mas é visível que foi encomendado e com um propósito bem distinto ao de mostrar o trabalho maravilhoso do Osho/Rajneesh. Mas admiro a grandiosidade do que eles (Sheela) fizeram. É grandioso e assustador.”

MARCO FILIPIN:

“Sérgio Veleda, faço minhas suas palavras. Tomei sannyas em 89. Osho virou minha vida é um ser louco e indomável. A frente de todos. Sheela não meditava. Era obstinada pelo poder e ciumenta. Osho disse se ela não estivesse perto dele, seria um novo Hitler.”

KATIA MARKO:

“(…) o Namastê vai exibir o filme “Caminho do Coração” sobre a construção da Comuna do Oregon. https://www.facebook.com/events/1603541766425155/?ti=cl \”

EU CONCLUO neste post:

E você? Já viu o documentário? O que achou deste rápido bate-papo? Espero teu comentário.

E pra não dizer que nada que li me pareceu válido, dou o link de um excelente texto de SUSANA ROMANA sobre a série documental “Wild Wild Country” que, apesar de usar o termo ‘seita’ no título, vale a leitura.

 

 

 

 

Anúncios

Vamos ao ponto, porque estamos indignados, um tanto tristes, mas a luta continua! E, num Estado de Exceção, onde rasgaram a Constituição Cidadã de 88, sou mais Geromel e Kannemann na DEFESA de Lula! E todos à rua!

Gremio x Guarani

O DISCURSO DE LULA EM SÃO BERNARDO | Trechos selecionados

 

Lula em S Bernardo

FOTO: FRANCISCO PRONER | FARPA FOTOCOLETIVO

Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça eu não tinha feito um partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país. Mas eu acredito na Justiça. Numa Justiça justa. Numa justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, baseado nas informações das acusações, das defesas, na prova concreta que tem a arma do crime.

 

O que eu não posso admitir é um procurador que fez um Power Point e foi para a televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil. E que o Lula, por ser a figura mais importante desse partido, o Lula é o chefe. E portanto, se o Lula é o chefe, diz o procurador: “eu não preciso de provas, eu tenho convicção”. Eu quero que ele guarde a convicção dele para os comparsas deles, para os asseclas deles e não para mim. Não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo provas. Estaria de rabo preso, de boca fechada, torcendo para a imprensa não falar o nome dele.

Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho mais de milhares de páginas de jornais e matérias me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes me atacando. Eu tenho mais as rádios do interior, rádios de outros estados. E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro.

Eu não tenho medo deles. (…) E eu, às vezes, tenho a impressão e tenho a impressão porque eu sou um construtor de sonhos, eu há muito tempo atrás, eu sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país. Eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma da universidade, cuidar mais da educação do que os diplomados e concursados que governaram esse país e cuidar da educação. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil, levando leite, feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha, para que a gente não tenha juízes e procuradores só da elite. Daqui a pouco nós vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascido em Itaquera, nascido na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST da CUT formada. Esse crime eu cometi. Eu cometi e é esse crime que eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esse crime de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi, eu quero dizer: eu vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.

(…) Pois bem, nós agora estamos num trabalho delicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família. Não é fácil o que sofrem os meus filhos. Não é fácil o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela. Tenho certeza. Porque essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma e não tem noção do que sente uma mão ou um pai quando vê um filho massacrado, quando vê um filho sendo atacado. E eu, então, companheiros, resolvi levantar a cabeça.

Não pensem que eu sou contra a Lava Jato, não. A Lava Jato, se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo, que roubou, e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós, a vida inteira, dizíamos, só prende pobre não prende rico. Todos nós dizíamos. E eu quero que continue prendendo rico. Eu quero. Agora, qual é o problema? É que você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa, porque no fundo, no fundo, você destrói as pessoas na sociedade, na imagem das pessoas e depois os juízes vão julgar e falam: “eu não posso ir contra a opinião pública porque a opinião pública está pedindo para cassar”. Quem quiser votar com base na opinião pública, largue a toga e vá ser candidato a deputado. Escolha um partido político e vá ser candidato. (…)

Pois bem, eu acho que tanto do TRF4 quanto Moro, a Lava Jato e a Globo, elas têm um sonho de consumo. O sonho de consumo é que, primeiro, o golpe não terminou com a Dilma. O golpe só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não possa ser candidato a Presidente da República em 2018. Eles não querem, não é porque eu vá ser eleito. Eles não querem que eu participe. Apenas porque existe a possibilidade de cada um de nós se eleger. Eles não querem o Lula de volta porque pobre, na cabeça deles, não pode ter direito. Pobre não pode comer carne de primeira. Pobre não pode andar de avião. Pobre não pode fazer universidade. Pobre nasceu, segundo a lógica deles, para comer e ter coisas de segunda categoria.

Então, companheiros e companheiras, o outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Eu fico imaginando a tesão da Veja colocando a capa minha preso. Eu fico imaginando a tesão da Globo colocando uma fotografia minha preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos.

Eles, eles decretaram a minha prisão. E deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu vou atender o mandado deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo que acontece neste país acontece por minha causa. Eu já fui condenado a 3 anos de cadeia porque um juiz de Manaus entendeu que eu não preciso de arma, eu tenho uma língua ferina, então era preciso fazer o Lula calar, porque se ele não calar, ele vai continuar falando frases como eu falei: “está chegando a hora da onça beber água” e os camponeses mataram um fazendeiro e eles acharam que essa frase minha era a senha.

O que que eu quero transferir de responsabilidade? Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça, não deu certo. Eles agora querem me pegar numa prisão preventiva, que é uma coisa mais grave, porque não tem habeas corpus. O Vaccari já tá preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou 400 milhões e não teve habeas corpus. Eu não vou gastar um tostão. Mas eu vou lá com a seguinte crença: eles vão descobrir, pela primeira vez, o que eu tenho dito todo dia. Eles não sabem. Eles não sabem que o problema deste país não chama-se Lula, o problema deste país chama-se vocês, a consciência do povo, o Partido dos Trabalhadores, o PCdoB, o MST, o MTST, eles sabem que tem muita gente. E aquilo que a nossa pastora diz, e eu tenho dito todo discurso, não adianta tentar evitar que eu ande por este país, porque tem milhões e milhões de Lulas, de Boulos, de Manuela, de Dilma Rousseff para andar por mim. Não adianta tentar acabar, sabe, com as minhas ideias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las. Não adianta tentar parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês. Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um enfarte, é bobagem, porque o meu coração baterá pelo coração de vocês e são milhões de corações.

Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não mais sou um ser humano, sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês, e eu tenho certeza que companheiros como os sem-terra, o MTST, os companheiros da CUT e do movimento sindical sabem, e esta é uma prova, esta é uma prova, eu vou cumprir o mandado e vocês, vocês vão ter que se transformar, cada um de vocês, vocês não vão mais se chamar Chiquinha, Joãozinho, Zezinho, Albertinho. Todos vocês, daqui pra frente, vão virar Lula e vão andar por este país fazendo o que você tem que fazer. E é todo dia! É todo dia! Eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução. Eles têm que saber. Eles têm que saber que nós vamos fazer, definitivamente, uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia. Eles têm de saber que vocês, quem sabe, são até mais inteligentes do que eu, e poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer as ocupações no campo e na cidade. Parecia difícil a ocupação de São Bernardo, e amanhã vocês vão receber a notícia de que ganharam o terreno que vocês invadiram.

Portanto companheiros, eu tive chance agora. Eu estava no Uruguai, entre Livramento e Rivera, e as pessoas diziam assim: “Lula, você dá uma voltinha ali. É só atravessar a rua. Finge que vai comprar um ‘‘uisquizinho’’, você está no Uruguai com o Pepe Mujica e vai embora e não volta mais, pede asilo político. Ô Lula, você pode ir na embaixada da Bolívia, você pode ir na embaixada do Uruguai. Ô Lula, vai na embaixada da Rússia. Ô Lula vai na embaixada, de lá você fica falando.”

Eu falei: “eu não tenho mais idade”. Minha idade é de enfrentá-los de olho no olho e eu vou enfrentá-los aceitando, aceitando cumprir o mandado. Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que tão me prendendo e quantos mais dias eles me deixarem lá, mais lulas vão nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país, porque a democracia, a democracia não tem limite, não tem hora para a gente brigar. Por isso eu estou fazendo uma coisa muito consciente, mas muito consciente. Eu falei para os companheiros: se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou porque eles vão dizer a partir de amanhã que o Lula tá foragido, que o Lula tá escondido. Não! Eu não estou escondido, eu vou lá na barba deles para eles saberem que eu não tenho medo, para eles saberem que eu não vou correr e para eles saberem que eu vou provar minha inocência. Eles têm que saber disso. E façam o que quiserem. Façam o que quiserem.

Eu vou terminar com uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina de 10 anos em Catanduva, que eu não sei quem é, e essa frase não tem autor. A frase dizia: “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera”. E a nossa luta é em busca da primavera. Eles tem de saber que nós queremos mais casa, mais escola, nós queremos menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro. Não queremos repetir a barbaridade que se faz com meninos negros nas periferias desse país. Não queremos mais que volte a desnutrição, a mortalidade por desnutrição neste país. Não queremos mais que um jovem não tenha esperança de entrar numa universidade, porque este país é tão cretino, que ele foi o último país do mundo a ter uma universidade. O último! Todos os países mais pobres tiveram, porque eles não queriam que a juventude brasileira estudasse. E falaram que custava muito fazer escola. É de se perguntar quanto custou não fazer há 50 anos atrás.

Então, eu quero que vocês saibam que eu tenho orgulho, profundo orgulho, de ter sido o único Presidente da República sem ter um diploma universitário, mas sou o Presidente da República que mais fiz universidade na história deste país para mostrar para essa gente que não confunda inteligência com a quantidade de anos na escolaridade. Isso não e inteligência, é conhecimento. Inteligência é quando você sabe tomar decisão. Inteligência é quando você tem lado. Inteligência é quando você não tem medo de discutir com os companheiros aquilo que é prioridade, e a prioridade desse país é garantir que este país volte a ter cidadania. Não vão vender a Petrobras! Vamos fazer uma nova constituinte! Vamos revogar a lei do petróleo que eles tão fazendo! Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa Econômica, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil! E vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que nós comemos neste país.

(…) Então, companheiros, eu vou dizer uma coisa a vocês, vocês vão perceber que eu sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente porque eu quero provar que eles cometeram um crime, um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política, e por isso eu sou muito grato, eu não tenho como pagar a gratidão, o carinho e o respeito que vocês têm dedicado por mim nesses tantos anos, quero dizer a você, Guilherme e a Manuela, quero dizer a vocês dois, para mim é motivo orgulho pertencer a uma geração que está no final dela vendo nascer dois jovens disputando o direito de ser Presidente da República deste país. Por isso, companheiros, uma grande abraço, pode ficar certo que esse pescoço aqui não baixa minha mãe já fez o pescoço curto para ele não baixar e não vai baixar porque eu vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado de lá porque vou provar a minha inocência. Um abraço, companheiros. Obrigado, mas muito obrigado a todos vocês pelo que vocês me ajudaram.

Um beijo queridos e muito obrigado!

Luiz Inácio Lula da Silva, 7 de abril de 2018

A íntegra do discurso histórico de Lula em São Bernardo

lula_sind_metalurgicos04_multidao

Foto: Francisco Proner | Farpa Fotocoletivo

Queridas companheiras e queridos companheiros,

Querido companheiro Wagner, presidente da CUT,

Querido companheiro Aloísio Mercadante, ex-Senador, ex-Deputado Federal, ex-Ministro da Ciência e Tecnologia, ex-Ministro da Educação, ex-Ministro da Casa Civil da presidenta Dilma, porra se eu tivesse tantos títulos assim eu seria Presidente da República

Companheiro Guilherme Boulos, nosso companheiro que está iniciando uma jornada sendo candidato a Presidente da República pelo Psol, mas é um companheiro da mais alta qualidade que vocês têm que levar em conta a seriedade desse menino. Eu digo menino porque ele só tem 35 anos de idade e quando eu fiz a greve de 78, eu tinha 33 anos de idade e consegui, através da greve, chegar a criar um partido e virar Presidente. Você tem futuro meu irmão, é só não desistir nunca.á

Quero cumprimentar essa garota [Manuela D’Ávila], essa garota bonita, garota militante do PCdoB, que também está fazendo a sua primeira experiência como candidata a Presidenta da República pelo PCdoB, porque eu acho um motivo de orgulho e uma perspectiva de esperança para esse país ter gente nova se dispondo a enfrentar a negação da política, assumindo a política e dizendo nós queremos ser Presidente da República para mudar a história do país.

Quero agradecer a companhia dessa mulher[Dilma Rousseff]. Possivelmente a mais injustiçada das mulheres que um dia ousaram fazer política nesse país. A injustiçada pelo jeito de governar, acusada de não saber conversar, acusada de não saber fazer política, mas eu quero ser testemunha de vocês: a Dilma foi a pessoa que me deu a tranquilidade de fazer quase tudo que eu consegui fazer na Presidência da República pela confiança, pela seriedade, e pela qualidade e competência técnica da Dilma. Eu sou….eu sou grato, grato de coração porque não teria sido o que foi se não fosse a companheira Dilma. Portanto Dilma você sabe que eu serei profundamente, para o resto da vida, repartirei o meu sucesso na Presidência com Vossa Excelência, independentemente do que aconteça nesse mundo.

Quero cumprimentar o meu querido companheiro Fernando Haddad que viveu o melhor período de investimento na educação brasileira.

Quero cumprimentar o meu companheiro Celso Amorim. Companheiro que certamente foi o mais importante Ministro das Relações Exteriores que esse país já teve, que colocou o Brasil como protagonista mundial durante todo nosso governo.

Quero parabenizar o nosso companheiro Ivan Valente, deputado pelo Psol, companheiro que está aqui.

Quero cumprimentar o nosso valoroso, o nosso extraordinário João Pedro Stédile, presidente e coordenador do Movimento Sem Terra.

Quero cumprimentar, eu não sei o nome, mas o companheiro presidente do Psol, o Juliano, jovem presidente do Psol.

Quero cumprimentar o nosso querido escritor Fernando de Moraes que está escrevendo a biografia do meu governo que nunca termina, porra. Eu estou quase para morrer e ele não termina minha biografia.

Quero cumprimentar o nosso querido companheiro Paulo Pimenta, líder do PT. O homem que tem o blog dos deputados mais importante em Brasília e o cidadão que melhor tem enfrentado o Moro e a operação Lava Jato, naquilo que são os defeitos dela. Parabéns, companheiro Pimenta.

Quero cumprimentar o índio mais esperto do Brasil o Presidente do Piauí, o Governador do Piauí, o companheiro Wellington, que está cumprindo o terceiro mandato e pelo andar das pesquisas ele está a caminho de cumprir o quarto mandato como governador do Estado do Piauí.

Quero, aqui, cumprimentar o companheiro Emídio, tesoureiro do PT e ex-prefeito de Osasco, que tem trabalhado incansavelmente para a gente recuperar o papel do PT na história desse país.

Quero cumprimentar o companheiro Orlando Silva, presidente, ou melhor, deputado do PCdoB.

Quero cumprimentar o nosso companheiro Índio, que é da Intersindical, é um companheiro de muita qualidade.

Quero cumprimentar o Presidente da CTB que está aqui, que é companheiro Adílson, que é um companheiro também muito importante no movimento sindical.

Quero cumprimentar a nossa companheira Gleisi Hoffmann, a nossa querida Presidenta do nosso partido.

Quero cumprimentar, quero cumprimentar o companheiro Luiz Marinho, presidente do PT, Ministro do Trabalho, Ministro da Previdência. Quero contar duas coisas do Marinho: o Marinho foi catador de algodão, catador de café e catador de amendoim em Santa Fé. O Marinho foi pintor na Volkswagen. O Marinho foi presidente desse sindicato. O Marinho foi presidente da CUT. O Marinho foi certamente o mais importante Ministro do Trabalho no meu governo. E o Marinho foi o melhor Ministro da Previdência, que foi o ministro que acabou com as filas da Previdência. E o Marinho foi o melhor prefeito que São Bernardo teve e agora é nosso Presidente estadual.

Quero cumprimentar o nosso Senador, o nosso querido Lindbergh, grande Lindbergh, que eu conheci ainda na campanha para derrubar o Collor, tentei tirá-lo do PCdoB para levar para o PT, mas a minha relação de amizade com o João Amazona era tão forte que eu não tive coragem de conversar com ele.

Quero cumprimentar aqui, gente, eu não tenho o nome de todo mundo. Quero cumprimentar e chamar aqui o Wagner, Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e o companheiro Moisés. É que está ali atrás e eu não estou vendo o nosso companheiro Senador da República, não, Vereador, mas futuro Senador, Eduardo Suplicy. Eu não posso falar que ele teve uma tontura porque isso não é recomendável para quem está sendo candidato, viu. Eu vou dizer que você estava sentado ali conversando com eleitores, está bem?

Eu pedi para vir aqui o companheiro do Sergipe, vice-presidente do PT. Companheiro que tem a incumbência de coordenar as Caravanas da Cidadania por todo território nacional e vocês têm acompanhado pela internet o companheiro Márcio.

Eu pedi para vir aqui dois sindicalistas porque eu acho… eu nasci nesse Sindicato. Quando eu cheguei aqui esse sindicato era um barraco. Esse prédio foi construído já na nossa diretoria. Aqui, para vocês saberem, eu fui diretor de uma escola de Madureza, que tinha 1.800 alunos. Vocês pensam que eu sou só torneiro mecânico? Podem dizer: diretor de escola com 1.800 alunos. Pois bem, e a minha relação com esse sindicato… aqui está o Paulão que é vice-presidente do sindicato e é presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos e é da Secretaria do Movimento Sindical do PT. Bem, eu não tenho nominata, eu estou chutando tudo de improviso que eu estou vendo. Mas eu queria, Wagner, aproveitar sua presença aqui para que esse pessoal soubesse que, na minha consciência, parte das conquistas da democracia brasileira a gente deve a esse Sindicato dos Metalúrgicos a partir de 1978. Aqui foi minha escola. Aqui eu aprendi sociologia, aprendi economia, aprendi física, química e aprendi a fazer muita política porque, no tempo que eu era presidente desse sindicato, as fábricas tinham 140.000 professores que me ensinavam como fazer as coisas. Toda vez que eu tinha dúvida eu is na porta da fábrica perguntar para a peãozada como fazer as coisas nesse país. Na dúvida não erre, na dúvida pergunte e, se você perguntar, a chance de você acertar é muito maior. E o Wagner é o companheiro que está cedendo esse prédio para a gente fazer toda a nossa campanha. Quero agradecer ao Moisés. O Moisés é companheiro do Wagner, é diretor financeiro do sindicato e é um companheiro que nunca se negou a contribuir com o movimento social, a contribuir com outras tarefas da democracia. Não para partido político, mas para o movimento social esse sindicato nunca negou absolutamente nada. Então eu quero uma salva de palmas para esses companheiros que são um sustentáculo da nossa luta. Esse sindicato, diferente de outros sindicatos, esse sindicato tem quase 283 diretores. Para ser diretor desse sindicato, as pessoas têm que ser eleitas pelo chão da fábrica para um comitê. Se não estiver no chão da fábrica não é eleito. E, depois de eleito membro do comitê, se escolhe os que vão ser diretores do sindicato e tem a diretoria executiva, mas tem 283 pessoas que são diretores e que são conselheiros. Se a gente fizesse isso em todo sindicato do Brasil certamente a gente teria muito menos pelegos no movimento sindical brasileiro.

Pois bem, eu fiz questão de citar ele porque às vezes o cara compra o alimento, lava o alimento, cozinha o alimento, leva para a gente comer e a gente sai sem saber quem nos deu o alimento. Então foram esses guerreiros aqui que deram essa possibilidade extraordinária da gente estar aqui fazendo isso.

A segunda coisa é que…. Eu confesso que vivi meus melhores momentos políticos nesse sindicato. Eu nunca esqueci a minha matrícula do sindicato. A minha matrícula é 25.986 de outubro, de setembro de 1968. E, de lá para cá, eu mantenho uma relação com esse sindicato que eu acho que é uma relação mais forte porque qualquer presidente que tenha aqui, Vicentinho já foi presidente, Meneghelli já foi presidente, Guiba já foi presidente, Zé Nobre já foi presidente, Feijóo já foi presidente, quem mais? O Guiba já falei, agora o Wagnão e, por todos eles, eu sou tratado como se fosse ainda Presidente desse sindicato, pela relação que nós ficamos. Mas aqui… o Rafael, foi o penúltimo presidente aqui.

Eu queria dizer para vocês que eu estou contando isso para tentar chegar ao que eu quero dizer para vocês.

Em 1979, esse sindicato fez uma das greves mais extraordinárias. Nós conseguimos fazer um acordo com a indústria automobilística que foi, talvez, o melhor. E eu tinha uma comissão de fábrica com 300 trabalhadores. E o acordo era bom. Eu resolvi levar o acordo para a assembleia. E resolvi pedir para a comissão de fábrica ir mais cedo para conversar com a peãozada. E eu fazia a assembleia de manhã para evitar que o pessoal bebesse um pouquinho à tarde. Porque quando a gente bebe um pouquinho, a gente fica mais ousado. Mesmo assim não evitava porque o cara levava litro de conhaque dentro da mala e eu passava ainda tomava uma “dosinha” para a garganta ficar melhor, coisa que não aconteceu hoje.

Pois bem, nós começamos a colocar o acordo em votação e cem mil pessoas, no estádio da Vila Euclides, não aceitavam o acordo. Era o melhor possível. A gente não perdia dia de férias, não perdia décimo terceiro salário e tinha 15% de aumento. Mas a peãozada estava tão radicalizada que queria 83 ou nada. E nós conseguimos. E aí passamos um ano sendo chamados de pelegos pelos trabalhadores.
A gente, Guilherme, ia na porta de fábrica e a peãozada … o Jorge Viana, está aqui meu querido senado do Acre, que eu não vi, ele é baixinho. Nosso querido companheiro, foi governador, foi prefeito, agora é senador do Acre. Obrigado pela presença, companheiro. Olha para falar em nome dos artistas aqui, eu queria falar todos, eu queria que o nosso Osmar Prado viesse aqui. Ele é o decano. Olha, tem muita gente aqui. E tem a mulherada do Pará também que está aqui. Mas eu citei o Osmar Prado porque o Osmar Prado é um artista de uma qualidade irrepreensível. O que Deus não deu de tamanho para ele, deu de inteligência e de capacidade artística. E ele já fez papéis extraordinários. Mas tem um que nunca esqueço que ele era o motorista e era tratado como se fosse chamado de Tabaco. E o Tabaquinho marcou a minha vida e eu fico mais feliz porque ele tem uma posição política extraordinária. E eu acho que esse aqui tem lado, esse tem lado, esse tem lado [apontando para os artistas que o rodeavam] e é com essa gente que a gente vai construir a nova política desse país.

Marco Aurélio, e a minha água Marco Aurélio? Olha eu vou dar para ele dizer uma coisinha sobre o Tabaco.

[Osmar Prado: O Tabaco tinha três mulheres e ainda as que tinha por fora. Aí eu pedi ao escritor que desse o final que desse o final ele sendo traído, porque todo traidor um dia é traído. E aí aparece a mulher do Tabaco, com uma penca de filhos, grávida. Ele diz: mulher como você está grávida? Faz mais de um ano que eu não vou lá.]

Isso é vingança das mulheres. Vingança, porque o homem pensa que só ele é esperto, mas as mulheres também são espertas.

Então, companheiros e companheiras … nós conseguimos, nós conseguimos … os trabalhadores não aprovaram o acordo … tem uma pessoa passando mal ali na frente, ali perto da escada, nessa direção … chegou o médico aí? Olha gente, se tiver um médico aqui, por favor. Tem uma médica, que vai passar e chega aí. Segura ela aí que tem uma médica que está indo para aí. Ela está ali perto daquelas câmeras de televisão ali. Olha lá, aquele pessoal que está levantando a mão. Muito bem … Espero que não tenha sido a minha voz porque se for eu tenho que para de falar.

Mas eu ia dizendo para vocês que nós não conseguimos aprovar a proposta que eu considerava boa e o pessoal, então, passou a desrespeitar a diretoria do sindicato. E eu ia na porta de fábrica e ninguém parava. E a imprensa escrevia: Lula fala para os ouvidos moucos dos trabalhadores. Nós levamos um ano para recuperar o nosso prestígio na categoria. E eu fiquei pensando com ar de vingança: os trabalhadores dizem que podem fazer cem dias de greve, quatrocentos dias de greve, que eles vão até o fim. Pois eu vou testá-los em 1980. E fizemos a maior greve da nossa história, a maior greve. Quarenta e um dias de greve, com dezessete dias de greve eu fui preso e os trabalhadores começaram, depois de alguns dias, a furar a greve e nós então … eu sei que o Tuma, eu sei que o Dr. Almir, eu sei que Teotônio Vilela ia dentro da cadeia e dizia para mim: ô Lula, você tem que acabar com a greve, você precisa dar um conselho para acabar com a greve. E eu dizia: eu não vou acabar com a greve, os trabalhadores vão decidir por conta própria. O dado concreto é que ninguém aguentou quarenta e um dias porque na prática o companheiro tinha que pagar leite, tinha que pagar conta de luz, tinha que pagar gás, a mulher passou a cobrar dele o dinheiro do pão e ele então começou a sofrer pressão não aguentou. Mas é engraçado porque na derrota a gente ganhou muito mais, sem ganhar economicamente, do que quando a gente ganhou economicamente. Significa que não é dinheiro que resolve o problema de uma greve. Não é 5%, não é 10%, é o que está embutido     de teoria política, de conhecimento político e de tese política numa greve.

Agora nós estamos quase que na mesma situação, quase que na mesma situação. Eu estou sendo processado e, eu tenho dito claramente, o processo do meu apartamento, eu sou o único ser humano que sou processado por um apartamento que não é meu. E ele sabe que o Globo mentiu quando disse que era meu. A Polícia Federal da Lava Jato quando fez o inquérito mentiu que era meu. O Ministério Público, quando fez a acusação, mentiu dizendo que era meu e eu pensei que o Moro ia resolver e ele mentiu dizendo que era meu. E me condenou a nove anos de cadeia. É por isso que eu sou um cidadão indignado, porque eu já fiz muita coisa com meus 72 anos, mas eu não os perdoo por terem passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão. Deram a primazia dos bandidos fazerem um pixuleco pelo Brasil inteiro. Deram a primazia dos bandidos chamarem a gente de petralhas. Deram a primazia de criar quase que um clima de guerra negando a política nesse país. E eu digo todo dia, nenhum deles, nenhum deles tem coragem ou dorme com a consciência tranquila da honestidade e da inocência que eu durmo. Nenhum deles.

Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça eu não tinha feito um partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país. Mas eu acredito na Justiça. Numa Justiça justa. Numa justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, baseado nas informações das acusações, das defesas, na prova concreta que tem a arma do crime.

O que eu não posso admitir é um procurador que fez um Power Point e foi para a televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil. E que o Lula, por ser a figura mais importante desse partido, o Lula é o chefe. E portanto, se o Lula é o chefe, diz o procurador: “eu não preciso de provas, eu tenho convicção”. Eu quero que ele guarde a convicção dele para os comparsas deles, para os asseclas deles e não para mim. Não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo provas. Estaria de rabo preso, de boca fechada, torcendo para a imprensa não falar o nome dele.

Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho mais de milhares de páginas de jornais e matérias me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes me atacando. Eu tenho mais as rádios do interior, rádios de outros estados. E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro.

Eu não tenho medo deles. Eu até já falei que gostaria de fazer um debate com o Moro sobre a denúncia que ele fez contra mim. Eu gostaria que ele me mostrasse alguma coisa de prova. Eu já desafiei os juízes do TRF4 que eles fossem para um debate na universidade que eles quisessem, no clube que eles quisessem para provar qual é o crime que eu cometi nesse país. E eu, às vezes, tenho a impressão e tenho a impressão porque eu sou um construtor de sonhos, eu há muito tempo atrás, eu sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país. Eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma da universidade, cuidar mais da educação do que os diplomados e concursados que governaram esse país e cuidar da educação. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil, levando leite, feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha, para que a gente não tenha juízes e procuradores só da elite. Daqui a pouco nós vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascido em Itaquera, nascido na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST da CUT formada. Esse crime eu cometi. Eu cometi e é esse crime que eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esse crime de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi, eu quero dizer: eu vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.

Companheiros e companheiras, eu em 1990, em 1986 eu fui o deputado constituinte mais votado na história do país e nós ficamos descobrindo que dentro do PT, Manuela, companheiros, o Ivan era do PT na época, havia uma desconfiança que só tinha poder no PT quem tinha mandato. Quem não tinha mandato …

Puts, eu não citei o senador Humberto Costa que eu vi aqui, Humberto Costa Senador de Pernambuco e eu esquecei de citar para vocês, ninguém me deu nominata. A Fátima [Bezerra}será a nova governadora do Rio Grande do Norte. Esse aqui [Wadih Damous], junto com o Paulo Pimenta, é o companheiro que mais briga e mais denuncia a Lava Jato. O Rosseto [Miguel] foi Ministro do Trabalho e da Previdência e talvez será o governador do Rio Grande do Sul nessas eleições agora. Está aqui nossa companheira Jandira Feghali que é uma companheira extraordinariamente combativa. O Glauber Rocha, é Braga, é Braga pô. Ô gente,  vai pegando e trazendo para mim. Alguém prepara uma nominata para mim que eu vou citando as pessoas.

Então companheiros, quando eu percebi que o povo desconfiava que só tinha valor no PT quem era deputado, Manuela e Guilherme, sabe o que eu fiz? Deixei de ser deputado. Porque eu queria provar ao PT que eu ia continuar a ser a figura mais importante do PT sem ter mandato, porque se alguém quiser ganhar de mim no PT só tem um jeito é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu, porque se não gostar não vai ganhar.

Pois bem, nós agora estamos num trabalho delicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família. Não é fácil o que sofrem os meus filhos. Não é fácil o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela. Tenho certeza. Porque essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma e não tem noção do que sente uma mão ou um pai quando vê um filho massacrado, quando vê um filho sendo atacado. E eu, então, companheiros, resolvi levantar a cabeça.

Não pensem que eu sou contra a Lava Jato, não. A Lava Jato, se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo, que roubou, e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós, a vida inteira, dizíamos, só prende pobre não prende rico. Todos nós dizíamos. E eu quero que continue prendendo rico. Eu quero. Agora, qual é o problema? É que você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa, porque no fundo, no fundo, você destrói as pessoas na sociedade, na imagem das pessoas e depois os juízes vão julgar e falam: “eu não posso ir contra a opinião pública porque a opinião pública está pedindo para cassar”. Quem quiser votar com base na opinião pública, largue a toga e vá ser candidato a deputado. Escolha um partido político e vá ser candidato. Ora, a toga ela é um emprego vitalício. O cidadão tem que votar apenas com base nos autos do processo. Aliás, eu acho que ministro da Suprema Corte não devia dar declaração de como vai votar. Nos Estados Unidos termina a votação e você não sabe em quem o cidadão votou exatamente para que ele não seja vítima de pressão. Imagine um cara sendo acusado de suicídio [assassinato] e não tenha sido ele o assassino. O que que a família do morto quer? Que ele seja morto. Que ele seja condenado. Então o juiz tem que ter, diferentemente de nós, a cabeça mais fria, mais responsabilidade de fazer acusação ou de condenar.

O Ministério Público é uma instituição muito forte por isso esses meninos que entram muito novos, fazem um curso de direito, depois faz três anos de concurso porque o pai pode pagar. Esses meninos precisam conhecer um pouco da vida. Conhecer um pouco de política para fazer o que eles fazem na sociedade brasileira. Tem uma coisa chamada responsabilidade. E não pensem que quando eu falo assim eu sou contra. Eu fui presidente e indiquei quatro procuradores e fiz discurso em todas as posses e eu dizia, quanto mais forte for a instituição, mais responsáveis os seus membros têm que ser. Você não pode condenar as pessoas pela imprensa para depois você julgá-las. Vocês estão lembrado que quando eu fui prestar depoimento lá em Curitiba eu disse para o Moro: você não tem condições de me absolver porque a Globo está exigindo que você me condene e você vai me condenar.

Pois bem, eu acho que tanto do TRF4 quanto Moro, a Lava Jato e a Globo, elas têm um sonho de consumo. O sonho de consumo é que, primeiro, o golpe não terminou com a Dilma. O golpe só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não possa ser candidato a Presidente da República em 2018. Eles não querem, não é porque eu vá ser eleito. Eles não querem que eu participe. Apenas porque existe a possibilidade de cada um de nós se eleger. Eles não querem o Lula de volta porque pobre, na cabeça deles, não pode ter direito. Pobre não pode comer carne de primeira. Pobre não pode andar de avião. Pobre não pode fazer universidade. Pobre nasceu, segundo a lógica deles, para comer e ter coisas de segunda categoria.

Então, companheiros e companheiras, o outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Eu fico imaginando a tesão da Veja colocando a capa minha preso. Eu fico imaginando a tesão da Globo colocando uma fotografia minha preso. Eles vão ter orgasmo múltiplos.

Eles, eles decretaram a minha prisão. E deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu vou atender o mandado deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo que acontece neste país acontece por minha causa. Eu já fui condenado a 3 anos de cadeia porque um juiz de Manaus entendeu que eu não preciso de arma, eu tenho uma língua ferina, então era preciso fazer o Lula calar, porque se ele não calar, ele vai continuar falando frases como eu falei: “está chegando a hora da onça beber água” e os camponeses mataram um fazendeiro e eles acharam que essa frase minha era a senha.

O que que eu quero transferir de responsabilidade? Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça, não deu certo. Eles agora querem me pegar numa prisão preventiva, que é uma coisa mais grave, porque não tem habeas corpus. O Vaccari já tá preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou 400 milhões e não teve habeas corpus. Eu não vou gastar um tostão. Mas eu vou lá com a seguinte crença: eles vão descobrir, pela primeira vez, o que eu tenho dito todo dia. Eles não sabem. Eles não sabem que o problema deste país não chama-se Lula, o problema deste país chama-se vocês, a consciência do povo, o Partido dos Trabalhadores, o PCdoB, o MST, o MTST, eles sabem que tem muita gente. E aquilo que a nossa pastora diz, e eu tenho dito todo discurso, não adianta tentar evitar que eu ande por este país, porque tem milhões e milhões de Lulas, de Boulos, de Manuela, de Dilma Rousseff para andar por mim. Não adianta tentar acabar, sabe, com as minhas ideias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las. Não adianta tentar parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês. Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um enfarte, é bobagem, porque o meu coração baterá pelo coração de vocês e são milhões de corações.

Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não mais sou um ser humano, sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês, e eu tenho certeza que companheiros como os sem-terra, o MTST, os companheiros da CUT e do movimento sindical sabem, e esta é uma prova, esta é uma prova, eu vou cumprir o mandado e vocês, vocês vão ter que se transformar, cada um de vocês, vocês não vão mais se chamar Chiquinha, Joãozinho, Zezinho, Albertinho. Todos vocês, daqui pra frente, vão virar Lula e vão andar por este país fazendo o que você tem que fazer. E é todo dia! É todo dia! Eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução. Eles têm que saber. Eles têm que saber que nós vamos fazer, definitivamente, uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia. Eles têm de saber que vocês, quem sabe, são até mais inteligentes do que eu, e poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer as ocupações no campo e na cidade. Parecia difícil a ocupação de São Bernardo, e amanhã vocês vão receber a notícia de que ganharam o terreno que vocês invadiram.

Portanto companheiros, eu tive chance agora. Eu estava no Uruguai, entre Livramento e Rivera, e as pessoas diziam assim: “Lula, você dá uma voltinha ali. É só atravessar a rua. Finge que vai comprar um ‘‘uisquizinho’’, você está no Uruguai com o Pepe Mujica e vai embora e não volta mais, pede asilo político. Ô Lula, você pode ir na embaixada da Bolívia, você pode ir na embaixada do Uruguai. Ô Lula, vai na embaixada da Rússia. Ô Lula vai na embaixada, de lá você fica falando.”

Eu falei: “eu não tenho mais idade”. Minha idade é de enfrentá-los de olho no olho e eu vou enfrentá-los aceitando, aceitando cumprir o mandado. Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que tão me prendendo e quantos mais dias eles me deixarem lá, mais lulas vão nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país, porque a democracia, a democracia não tem limite, não tem hora para a gente brigar. Por isso eu estou fazendo uma coisa muito consciente, mas muito consciente. Eu falei para os companheiros: se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou porque eles vão dizer a partir de amanhã que o Lula tá foragido, que o Lula tá escondido. Não! Eu não estou escondido, eu vou lá na barba deles para eles saberem que eu não tenho medo, para eles saberem que eu não vou correr e para eles saberem que eu vou provar minha inocência. Eles têm que saber disso. E façam o que quiserem. Façam o que quiserem.

Eu vou terminar com uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina de 10 anos em Catanduva, que eu não sei quem é, e essa frase não tem autor. A frase dizia: “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a chegada da primavera”. E a nossa luta é em busca da primavera. Eles tem de saber que nós queremos mais casa, mais escola, nós queremos menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro. Não queremos repetir a barbaridade que se faz com meninos negros nas periferias desse país. Não queremos mais que volte a desnutrição, a mortalidade por desnutrição neste país. Não queremos mais que um jovem não tenha esperança de entrar numa universidade, porque este país é tão cretino, que ele foi o último país do mundo a ter uma universidade. O último! Todos os países mais pobres tiveram, porque eles não queriam que a juventude brasileira estudasse. E falaram que custava muito fazer escola. É de se perguntar quanto custou não fazer há 50 anos atrás.

Então, eu quero que vocês saibam que eu tenho orgulho, profundo orgulho, de ter sido o único Presidente da República sem ter um diploma universitário, mas sou o Presidente da República que mais fiz universidade na história deste país para mostrar para essa gente que não confunda     inteligência com a quantidade de anos na escolaridade. Isso não e inteligência, é conhecimento. Inteligência é quando você sabe tomar decisão. Inteligência é quando você tem lado. Inteligência é quando você não tem medo de discutir com os companheiros aquilo que é prioridade, e a prioridade desse país é garantir que este país volte a ter cidadania. Não vão vender a Petrobras! Vamos fazer uma nova constituinte! Vamos revogar a lei do petróleo que eles tão fazendo! Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa Econômica, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil! E vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que nós comemos neste país.

É com essa crença companheiros, de cabeça erguida, como eu estou falando com vocês, que eu quero chegar lá e falar para o delegado estou à sua disposição e a história, a história daqui a alguns dias vai provar que quem cometeu crime, foi o delegado que me acusou, foi o juiz que me julgou e foi o Ministério Público que foi leviano comigo, por isso, companheiros, eu não tenho lugar no meu coração para todo mundo, mas eu quero que vocês saibam se tem uma coisa que eu aprendi a gostar neste mundo é da minha relação com o povo, quando eu pego na mão de um de vocês, quando eu abraço um de vocês, quando eu beijo… agora estou beijando homem e mulher igualzinho, não mistura mais, quando eu beijo um de vocês, eu não estou beijando com segundas intenções, eu estou beijando porque quando eu era presidente eu dizia eu vou voltar para onde eu vim e eu sei quem são meus amigos eternos e quem são os amigos eventuais, os de gravatinha que iam atrás de mim, agora desapareceram, e quem está comigo é aqueles companheiros que eram meus amigos antes de eu ser Presidente da República, é aqueles que comiam rabada aqui no Zelão, é aqueles que comiam frango com polenta ali no Demarchi, é aquele que tomava caldo de mocotó no Zelão, esses continuam sendo os nossos amigos, é aqueles que têm coragem de invadir um terreno para fazer casa, é aqueles que têm coragem de fazer uma greve contra a Previdência, é aqueles que têm coragem de fazer alguma greve ocupar um campo para fazer uma fazenda produtiva, é aqueles que na verdade precisam do Estado. Então, companheiros, eu vou dizer uma coisa a vocês, vocês vão perceber que eu sairei dessa maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente porque eu quero provar que eles cometeram um crime, um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política, e por isso eu sou muito grato, eu não tenho como pagar a gratidão, o carinho e o respeito que vocês têm dedicado por mim nesses tantos anos, quero dizer a você, Guilherme e a Manuela, quero dizer a vocês dois, para mim é motivo orgulho pertencer a uma geração que está no final dela vendo nascer dois jovens disputando o direito de ser Presidente da República deste país. Por isso, companheiros, uma grande abraço, pode ficar certo que esse pescoço aqui não baixa minha mãe já fez o pescoço curto para ele não baixar e não vai baixar porque eu vou de cabeça erguida e vou sair de peito estufado de lá porque vou provar a minha inocência. Um abraço, companheiros. Obrigado, mas muito obrigado a todos vocês pelo que vocês me ajudaram.

Um beijo queridos e muito obrigado!

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

São Bernardo do Campo (SP), em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, para uma multidão de milhares de militantes, em 7 de abril de 2018.

Foto: Francisco Proner | Farpa Fotocoletivo

“Ficar em silêncio e caminhar são hoje em dia duas formas de resistência política”

“Uma atividade cultural teria de estar encaminhada para que cada um se encontrasse consigo mesmo, se reconhecesse em seu interior e iniciasse um diálogo íntimo sem sair de si, valendo-se dos instrumentos que a cultura deveria pôr ao seu alcance. Contudo, em vez disso, temos uma cultura que é cada vez mais de massas e menos de pessoas, na qual é impossível se reconhecer. Também é importante opor resistência às formas invasivas da cultura que permeiam o silêncio.”

Desenhares

David Le Breton, sociólogo

David Le Breton (Le Mans, 1953) na última terça-feira, 17 de outubro, em Málaga, durante a entrevista / Foto de Javier Albiñana

*

O pensador francês, autor de livros como El silencio e Elogio del caminar, descreve o seu ideário nesta entrevista concedida ao Grupo Joly, antes de pronunciar uma conferência em La Térmica.

*

Por Pablo Bujalance
Málaga, 19 de outubro de 2017
[artigo publicado originalmente no ‘Diario de Sevilla’]

Doutor em Sociologia pela Universidade Paris VII e professor na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Ciências Humanas Marc Bloch, de Estrasburgo, o pensador francês David Le Breton (Le Mans, 1953) encarna como poucos de seus contemporâneos a melhor tradição intelectual de seu país. Na Espanha, publicou com êxito livros como El silencio, Elogio del caminar e Desaparecer de sí: una tentación contemporánea, com os quais aposta em…

Ver o post original 1.138 mais palavras

Žižek: A lição da vitória de Corbyn

“Infelizmente, o espaço público esquerdista-liberal está também cada vez mais dominado pelas regras da “cultura de twitter”: saturado de sacadas curtas, réplicas pontuais, comentários sarcásticos ou indignados, mas com cada vez menos espaço para as etapas múltiplas de uma linha de argumentação mais substancial. Reage-se a meros recortes de um texto (uma passagem, uma frase, ou às vezes nem isso). A postura que sustenta essas respostas de cunho de “tweet” agrega um certo farisaísmo dono da verdade, um moralismo politicamente correto e um sarcasmo brutal: assim que qualquer coisa soar problemática, ela é imediatamente detectada provocando uma resposta automática, geralmente um lugar comum do glossário politicamente correto”

Blog da Boitempo

PorSlavoj Žižek.

O inesperado sucesso de Jeremy Corbyn e do Labour Party nas urnas inglesas deixou vermelha de vergonha a sabedoria cínica predominante entre os pretensos especialistas políticos. Até mesmo aqueles que se diziam simpatizar com Corbyn, mas que se esquivavam com a desculpa de que “Sim, eu votaria nele, mas a realidade é que ele é inelegível, o povo está muito manipulado e amedrontado, o momento ainda não é ideal para um lance tão radical.”

Ver o post original 1.371 mais palavras

Análise da Música Brasileira – Parte 1

Do autor: “O que eu fiz aqui foi um breve estudo que analisa toda a produção musical brasileira levando em consideração dois aspectos centrais: os acordes utilizados nas composições e o vocabulário presente nas letras. Os indicadores que caracterizam cada um desses aspectos permitirão não apenas perceber as características pertinentes a cada artista e gênero isoladamente, como também encontrar similaridades entre eles, permitindo a criação de agrupamentos talvez inimagináveis. Ao final de tudo, será possível compor um ranking de artistas, de acordo com a complexidade de sua produção musical (não falo em qualidade das músicas pois haveria necessariamente uma conotação subjetiva).”

Um Novato em Ciência de Dados

Veja o gráfico abaixo. É a distribuição dos gêneros musicais brasileiros considerando apenas 2 medidas: a quantidade de acordes distintos utilizados nas composições (eixo horizontal) e a quantidade de palavras distintas utilizadas nas letras (eixo vertical).

bolhas_generosCom apenas essas duas medidas, fica bastante nítido como os alguns gêneros se posicionam de maneira isolada em relação aos outros. Enquanto o Rap/Hip Hop destaca-se ao mesmo tempo pela alta quantidade de palavras e pelo baixo número de acordes, a Bossa Nova tem um alto número de acordes e uma quantidade mediana de palavras. Já a MPB apresenta altos índices em ambas as medidas. Outros gêneros se aglomeram perto da origem do eixo, como o Funk, o Axé Music, o Reggae e o Infantil.

O que informações como a diversidade dos acordes (saiba o que é isso) ou o tamanho do vocabulário utilizado têm a nos dizer sobre…

Ver o post original 738 mais palavras

%d blogueiros gostam disto: